Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Decapitação

Quando o manobrismo se instala no seio da democracia, percebemos que é urgente repensar o sistema político.

Francisco Moita Flores 27 de Novembro de 2006 às 17:00
Conheço pessoalmente a deputada Luísa Mesquita. Fomos adversários nas últimas eleições autárquicas. Candidatava-se, então, à Câmara de Santarém, encabeçando a lista da CDU. Hoje é uma das minhas vereadoras. Mas já a conhecia por via da sua intervenção política na Assembleia da República. E admirava-a. Quem vive a política sem a paixão do sectarismo ou da ambição pessoal aprende a admirar os outros. Mesmo que deles discorde. Luísa Mesquita era, ainda é, uma das vozes mais lúcidas do Parlamento. Inteligente, arguta, argumentação rápida e retórica bonita. Uma voz indiscutível dos comunistas portugueses.
Mais tarde, já na câmara municipal, onde nos sentamos lado a lado, percebi a força das suas convicções. Nada do que faz, do que argumenta, daquilo por que combate é dissociado do seu partido, das suas convicções profundas, da sua forma empenhada que resulta de acreditar indiscutivelmente naquilo que defende. Se nas sucessivas rupturas que sacodem o movimento comunista português, alguém quisesse prognosticar quem ia ser o próximo, ninguém apostaria em Luísa Mesquita para eventual dissidência. Sobretudo num partido onde cada vez é maior a escassez de quadros brilhantes, de elevada qualidade, capazes de fazer-nos admirar adversários sem qualquer preconceito.
Pois bem, depois de enxotar o presidente da Câmara de Setúbal, surge agora a vez de despachar esta ilustre escalabitana. Sem mais nem menos e para espanto de aliados e opositores. A argumentação é básica e simplista. Por um lado, reclama-se a renovação dos quadros. E quem assim fala, sendo bem mais novo do que a deputada saneada, é intelectualmente bem mais velho, prenho da ortodoxia mais intransigente e retrógrada. Depois reivindica-se que o lugar de deputado não é da pessoa eleita mas do partido. É verdade, mas também é um dos principais estigmas que hoje desprestigiam o Parlamento. A discussão em torno dos círculos uninominais passa por essa querela. A necessidade de identificar, ao nível dos eleitos, rostos com políticas. E aqui, é justo que se sublinhe o importante contributo de Luísa Mesquita para o debate sobre os grandes problemas que afectam o círculo por onde foi eleita e Santarém não vai esquecer o seu empenho na defesa da região.
Conhecendo-se-lhe a tenacidade não é de admirar que tenha feito frente à máquina do partido. Não duvido que pagará caro essa coragem lúcida. A história recente mostra o que acontece aos dissidentes e mais cedo ou mais tarde ‘o poder do aparelho’ vai destruir todas as suas metas, projectos e desígnios. Não há piedade perante alguém que assume a discordância. E tenho pena que assim seja. Porque tenho medo de perder a mais brilhante vereadora da oposição. A mais dura e também a mais leal. A mais atenta e também a mais incisiva. E perde Santarém e, embora pouco me incomode, o partido que a elegeu.
Quando o manobrismo se instala no seio da democracia, percebemos que é urgente repensar o sistema político, as responsabilidades individuais e a forma de participação. Assim, caminhamos para o abismo. Para que o poder seja servido por uma legião de serventuários, acéfalos, mesquinhos e medíocres cuja política é do tamanho do seu umbigo. Vamos mal. E não se enxerga luz ao fundo do túnel.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)