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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Janeiro de 2005 às 17:00
A imaginação de Jorge Coelho e o pragmatismo de António Vitorino não conseguiram o milagre: manter José Sócrates silenciado até 20 de Fevereiro.
O objectivo era lógico e bem intencionado. Sem ter que se explicar ao País conseguiria esconder que, afinal, não é tão crítico da governação da actual maioria como procurava mostrar; não precisava de perder eleitorado esclarecendo que a herança ‘guterrista’ ainda exige mais uns anos de sacrifícios; não necessitava de abordar matérias tão eleitoralmente incómodas como o são a política fiscal; o pagamento de portagem nas SCUT; o futuro da legislação sobre reabilitação urbana, regionalização ou interrupção voluntária da gravidez.
Como era fatal, o secretário-geral do PS teve que, finalmente, falar e a sua simpatia pessoal não consegue disfarçar as contradições enormes em que o PS está enredado e a inconsistência da sua candidatura a primeiro-ministro.
No espaço de três dias foi o caos. Fossem os analistas da praça tão exigentes como foram, meses a fio, com Santana Lopes, e todo o edifício socialista estaria em derrocada.
Sócrates disse a um diário de referência que um novo referendo sobre a despenalização do aborto seria uma das suas prioridades parlamentares, relegando para 2006 a consulta popular sobre a Constituição Europeia.
Vinte e quatro horas depois, face à turbulência provocada por essa intempestiva declaração, o PS veio apressadamente e de forma atabalhoada desmentir o seu líder.
Nos dias anteriores, Sócrates falou sobre economia e foi deprimente. Decretou o fim imediato do recurso a receitas extraordinárias como forma de equilibrar o Orçamento e anunciou, já a partir de 2005, um crescimento económico de 3% ao ano! Não explicou como conseguiria esse milagre, mas também não foi preciso. De imediato foi corrigido por Manuel Pinho, o seu porta-voz para as finanças: afinal haveria necessidade de receitas extraordinárias até 2009 e o crescimento de 3% era somente um horizonte bem intencionado!!!
Logo a seguir, novo percalço. Sócrates anuncia a sua intenção de extinguir o modelo de gestão dos hospitais SA, propondo a sua transformação em empresas públicas! Dessa forma, segundo o líder do PS, alterava o modelo mas manteria a lógica de gestão empresarial! Ninguém entendeu a peregrina intenção, mas, também neste caso, não valia a pena o esforço.
Logo de seguida, Correia de Campos, o porta-voz do PS para a Saúde, desdisse o seu chefe reafirmando a sua fé na gestão empresarial dos hospitais SA, esclarecendo que este modelo só necessitaria de ser reavaliado!!
No contexto deste ‘tsunami’ de contradições e confusões Sócrates fez ainda um involuntário elogio à governação da actual maioria: ficamos a saber que se, por absurdo, vencesse em Fevereiro, não revogaria o Código de Trabalho e aproveitaria as iniciativas reformistas social-democratas nas áreas da Administração Pública e da Justiça.
Sentido de Estado? Talvez, mas tardio. Tardio pela constatação de que fez uma oposição catastrofista, criticando medidas com que estaria de acordo, ou seja, evidenciando que na oposição vale tudo desde que seja tomar o poder pelo poder.
Percebe-se cada vez melhor por que é que José Sócrates tinha estado tanto tempo a gozar férias na neve e por que não quer ter debates televisivos. Nos próximos tempos, a palavra de ordem no Rato será: “Calem o homem”!
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