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Correio da Manhã

Opinião
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6 de Maio de 2007 às 00:00
O enredo é, infelizmente, clássico. Pais desesperados, em estado de choque, criança desaparecida, sinais evidentes de um rapto (provavelmente feito por alguém que conheceu as vítimas e teve tempo para reflectir sobre o crime).
A embaixada britânica em Portugal, competente e rápida quando se trata do sofrimento dos seus cidadãos, acorreu, até ao mais alto nível.
As várias estruturas nacionais de segurança e investigação, que não podem adivinhar as emergências individuais, puseram-se em campo, logo que avisadas.
Os meios de comunicação ‘de referência’ no Reino Unido noticiaram o caso correctamente, com detalhes, espírito cívico, humanidade, enquadramento, testemunhos e até ‘furos’ (a BBC, por exemplo, relatou a “firme confiança” num desenlace, expressa por uma autoridade).
Alguns tablóides (sobretudo ingleses) e familiares do casal de Leicestershire permitiram-se, porém, esquecer os factos, e insultar a polícia portuguesa, de forma gratuita e abjecta, aludindo à sua “ineficácia total”.
A leitura subliminar é óbvia: uma menina maravilhosa, Madeleine, oriunda de classes altas, vinda de um império sofisticado, para férias no terceiro mundo, acabou por ser presa do subdesenvolvimento e da incúria de uma nação de selvagens.
Ninguém, nesses meios da baixa demagogia, se lembrou de lembrar um triste facto: o da grave negligência paterna, ao deixar sozinhos três menores, quase bebés, que nunca poderiam ter conhecimento de regras de segurança, nunca se poderiam defender, nunca poderiam lançar o alerta e estariam sempre indefesos perante o mal.
Claro que o lapso dos pais não destrói o seu amor pelos filhos, nem é prova de menor afecto. É ‘só’ um erro. Um erro trágico. Em vez de explicar que as polícias portuguesas fizeram tudo – e continuam a fazê-lo – para minimizar e reparar esse erro, os jornaleiros do escândalo preferiram mais um insulto ao velho aliado europeu de Londres.
Estamos habituados, mas não podemos tolerar.
A BELA E O MONSTRO
A crueldade anglo-saxónica compara Ségolène Royal a Mary Poppins, a governanta (ou criada de servir?) com poderes mágicos, e Sarkozy ao Conde Drácula, e o seu sorriso de lobo disfarçando mal o apetite de sangue. Na verdade, cada palavra de Royal, tentando desfazer a herança histórica de socialistas e comunistas pré-históricos, é um passe de magia. E cada elogio de Sarkozy a Ségolène é um presente envenenado. E cada piropo é uma ofensa. E cada apoio é um sarcasmo.
Muito provavelmente os 8% de avanço de Sarkozy dar-lhe-ão o Eliseu. Mas em Junho, Ségolène pode aspirar ao palácio de Matignon. Será então, mais do que co-habitação, casamento com separação de bens. E pessoas.
Primeiros sinais. Em Sharm El Sheikh, à beira do Mar Vermelho, primeiros sinais de fala, ainda monossilábica, entre EUA e os ‘inimigos’ (Damasco e Teerão). Em Tel Aviv, primeiros sinais de que o povo israelita não engole tudo, em nome da ‘segurança nacional’.
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