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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Agosto de 2011 às 00:30

Nos últimos tempos, e de modo especialmente audível desde que o novo governo tomou posse, tem-se dito que este vai ser um período de contestação de rua. Contestar é um exercício democrático e a rua é, por excelência, um espaço livre. Mas a contestação de rua não expressa, para mim, nem mais democracia nem mais liberdade do que, por exemplo, o voto do povo. Isto para dizer que respeito democraticamente quem contesta nas ruas as medidas que acha que deve contestar, mas que não confundo essas manifestações de rua com a expressão suprema do que o povo pensa e quer. Faço este ponto prévio para reflectir sobre o papel dos sindicatos numa época tão exigente como a que vivemos.

Os sindicatos têm uma importância ímpar na nossa sociedade, seja numa perspectiva histórica, social, económica ou política. Representantes dos trabalhadores, são uma voz insubstituível em praticamente todos os fóruns económicos e sociais, e não apenas laborais. Pessoalmente, nunca vi nos sindicatos um mal necessário ou uma inevitabilidade incómoda da democracia, mas antes interlocutores legítimos e responsáveis de um diálogo a muitas vozes. Sentam-se, por direito próprio, à mesa da concertação social, onde são parceiros dos representantes das associações patronais e do Governo. Ora, ser parceiro tem que se lhe diga. Pressupõe interesses próprios (e legítimos) mas alguns desígnios comuns. E se há desígnio comum que hoje é vital para Portugal é o de sair da crise. Ninguém pode ficar de fora: trabalhadores, empresários, Estado.

Exige sacrifícios? Sim, todos nós já os começamos a sentir. Vai ser duro? Vai, e ninguém responsável se atreve a dizer o contrário. Vai valer a pena? É a nossa obrigação, por nós e pelas gerações seguintes. Sou dos que pensam que os sindicatos devem mobilizar o melhor de si para que a economia volte a funcionar. Mas mobilizar o descontentamento é o mais fácil e não é, decididamente, o que o país precisa. O que faz falta é mobilizar para a mudança, a produtividade, a competitividade, e isso não é, nem pode ser, incompatível com o interesse dos trabalhadores. Porque uma economia forte e saudável é a melhor defesa dos trabalhadores. Cabe aos sindicatos decidir qual a palavra de ordem que melhor os defende: dialogar ou gritar. Acredito que seja dialogar.

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