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Correio da Manhã

Opinião
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12 de Março de 2003 às 00:32
Personalidade incontornável do nosso cenário institucional, o dr. Mário Soares, que ninguém acredita se vá retirar da vida política activa, continua a pontificar em tudo quanto respeita a Portugal, à União Europeia e à problemática decorrente dos Tratados de Maastricht, de Amesterdão e de Nice. A sua voz, respeitada e autorizada, tem-se feito ouvir em vários areópagos, sobre temas prementes como o alargamento, a federação, a constituição. Concorde-se ou não se concorde com as suas convicções profundas, é sempre com atenção que são lidos os artigos que escreve e as entrevistas que dá, e acompanhadas as suas intervenções, quer na televisão, quer em debates públicos de menor audiência.

Às vezes, porém, o ex-Presidente da República produz declarações de tal modo controversas que suscitam dúvidas acerca da sua autenticidade. A título de exemplo, numa entrevista a um diário terá afirmado não perceber "como é que a Turquia foi deixada de fora" (pela UE). Ora, para além de essa situação se poder explicar pelo incumprimento dos critérios de convergência, outras condicionantes a explicam, de tal forma que até a própria Turquia esperava o adiamento.
Mas o que mais surpreendeu, nos últimos meses, nas afirmações do dr. Mário Soares (para além do seu apoio à greve geral e da sua participação na "marcha contra a guerra"), foi a justificação que apresentou para a sua renúncia à presidência da Delegação do Parlamento Europeu para as relações com Israel. Ao anunciar, em Estrasburgo, esta sua decisão, o eurodeputado Mário Soares referiu tratar-se de um acto de protesto em relação à política seguida pelo governo israelita. E deixou bem claro que, para ele, a saída de Shimon Peres e dos restantes membros trabalhistas fora a pedra de toque para se demitir daquela Delegação. Por outras palavras, relações com Israel sem trabalhistas no governo, não. Com trabalhistas, sim.

Não conheço, nem de longe nem de perto, quais as competências e as orientações da referida Delegação. Mas custa a crer que o âmbito das suas relações com Israel seja de algum modo condicionado à presença de trabalhistas no governo.

Aliás, Israel é uma democracia e, na altura, estava-se a menos de dois meses de novas eleições. Ainda que o Likud fosse permanecer como partido maioritário no Executivo, como era previsível, atrevo-me a pensar que, quanto mais a atitude de Telavive pareça "nociva para a paz", mais motivação deveria orientar os esforços da União Europeia para, eventualmente, fazer Israel mudar de rumo.

Mário Soares, pouco tempo depois, durante a sessão de encerramento do Conselho Mundial das Juventudes Socialistas, defendeu o diálogo com comunistas e outros esquerdistas e acentuou ainda ser preciso que a esquerda dialogue entre si. É um conselho louvável da parte de quem sempre foi fiel a si próprio e às suas convicções mas, se tomarmos em consideração que se dirigia a jovens, não teria sido mais construtivo e pedagógico incitá-los a um diálogo sem fronteiras ideológicas, ao qual, de resto, Soares nunca se furtou enquanto primeiro-ministro? Embora mais difícil de travar com adversários, porventura situados em campos opostos, sempre será preferível a um diálogo com fronteiras que, afinal, não passará de um monólogo. O dr. Mário Soares, que durante os seus mandatos em Belém sempre assumiu uma postura de Estado, como Presidente de todos os portugueses, tem com certeza presente a visão de um pluripartidarismo harmónico, que não extrema posições, nem radicaliza conceitos. Uma visão humanista, tolerante e justa.

Se, de facto, como anunciou, prepara o abandono do Parlamento Europeu, não desejará por certo deixar nele uma imagem de frentismo de esquerda, que decididamente não corresponde à que sempre foi a sua.
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