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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Abril de 2006 às 17:00
Na passada semana fui brindado por duas páginas de prosa rara. Um tal Pedro Marta Santos (PMS) inaugurava uma rubrica, dita de investigação jornalística, sobre a “intimidade” dos homens públicos, tentando atingir a minha honorabilidade.
Começou pela minha infância. Era filho único, após dois irmãos terem morrido à nascença. Tinha “... nascido em berço de ouro e ia de limousine para a escola”. Com este delírio, tentava desenhar o perfil de miúdo mimado e megalómano.
Mentira. Não nasci em berço de ouro. O meu pai é um pequeno comerciante e minha mãe uma modesta professora. Cresci austeramente. A limousine eram as “pernas roliças e gordas” de que fala o artigo – mas que frustração freudiana esconderá tão bizarra referência!? E outra: “… o debute sexual pelas mãos de um primo mais velho...” Irra!!! Aliado à fixação nas “coxas gordas”, deduzo que o homem terá um recalcamento mal resolvido!
Sobre a minha adolescência, tentou sublinhar a ideia do menino rico. Falso. A minha adolescência foi a de um normal estudante de província. Fui ao Porto com dez anos, até aos 18 Vigo foi o mais longe que fui e o meu primeiro carro foi um Mini de 48 contos.
O delírio continuava. Revelava um casamento contra a vontade dos meus sogros. Lembrava os epítetos de “vaidoso”, “frouxo” e “gabarola” sobre Martins da Cruz, Barroso e Narciso. E mais os Congressos do PSD em que fui derrotado, entre eles o do célebre episódio do Coliseu de Lisboa.
Pobre escriba. Casei há 26 anos. Tenho uma família consolidada, com os problemas comuns a tantas, mas adoro a minha mulher e os meus três magníficos filhos. Os epítetos são fruto do combate político e todos são, hoje, meus amigos. Perdi Congressos – Sá Carneiro e Barroso também.
A preocupação em credibilizar o texto obrigou-o a dizer que fui aluno brilhante e profissional competente. Acrescento, sem imodéstia: fui dos mais jovens professores universitários em Medicina no Porto; fui dos poucos bolseiros em Medicina da Gulbenkian; fui seis anos ‘vice’ do Grupo Parlamentar do PSD e o governante que mais tempo esteve nessa área; sou Presidente da terceira Câmara de Portugal.
Curioso: em nenhuma linha era dito que era desonesto. Nada mau nos tempos que correm...
Deixo para o fim o que mais me magoou. Teria uma ascendência materna aristocrática e paterna plebeia. Por isso, usava o apelido Menezes a esconder o Lopes do meu pai. Nojento! Não escolhemos o apelido que, bem cedo na escola, a malta adopta. Acontece por acaso, aconteceu comigo. Mas PMS nada respeita. Tocou no que tenho de mais sagrado. Amo muito os meus pais; meu pai é a minha referência primeira, meu melhor amigo, meu santo preferido. Nunca perdoarei esse insulto.
Finalmente, o texto demorou semanas a elaborar. Começou antes de se saber que não seria candidato a líder do PSD! Para bom entendedor...
Acredito na seriedade dos jornalistas e na liberdade de Imprensa. Esta é uma crónica de homenagem ao jornalismo sério que não se revê em textos como esse. Sei que o leitor não tem culpa, mas quem não se sente não é filho de boa gente. Ou, como diria Mário Soares, é o meu direito à indignação.
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