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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

DOIS ANOS DEPOIS

Bin Laden não é um inimigo militar. É um criminoso de delito comum. Por isso, um alvo da polícia.

Francisco Moita Flores 7 de Setembro de 2003 às 01:51
Faz esta semana dois anos que aconteceu o ataque terrorista contra os EUA. Nunca o terrorismo fora tão longe e jamais se vira, movido pela sanha assassina, tanta quantidade de cadáveres de gente inocente. Por esses dias, quando os falcões deitavam as garras de fora para se lançar na indústria da guerra, o melhor negócio do mundo, por esses dias, dizia, quando mais do que retaliar cegamente se procurava vingança, escrevia que não seria possível mover qualquer guerra vitoriosa contra o terrorismo por via da razão militar. Levei umas valentes coças por causa dessa posição tão pouco vingativa e tão desmesuradamente 'anti-americana'. Porque, bastava alguém hesitar sobre uma decisão que nos lançasse na guerra para logo ser anti-americano.
Defendia nessa altura que o combate ao terrorismo é essencialmente um exercício de polícia, de trabalho de investigação que mobiliza, neste contexto, o que de mais produtivo se faz nos serviços de informações. Defendia, ainda, que gente como Bin Laden, Mulah Omar e outros responsáveis da Al-Qaedda, serviriam como melhores vias de pacificação se fossem presos e julgados do que mortos à bomba.
Agora, dois anos depois que saldo devemos fazer das consequências desse dia trágico? Com as duas guerras – Afeganistão e Iraque - felizmente desapareceram duas ditaduras. Foram destruídas algumas bases terroristas. Foram presos, ou mortos, alguns terroristas. Mas a verdade é que a estrutura nuclear da al-Qaeda continua viva e de saúde, outras organizações que se impõem pelo terror, tais como o Hamas, a Jhiad, continuam mais vivas, pese a política de guerra total levada a cabo por Israel e o mundo está mais inseguro.
Os atentados de Bali, pela brutalidade, e contra a ONU em Bagdad, pelo simbolismo, para além de mais de uma dezena de ataques levados a efeito pelo mundo, revela que a opção militar nunca foi, e continuará a não ser a melhor solução para atacar o terrorismo. Embora seja a que melhores e maiores negócios produz.
Há dois anos escrevia, por concordar com os argumentos que boa parte das forças de polícia e de informações americanas defendiam, que quem sairia reforçado daquele ataque terrorista, seriam as polícias americanas e europeias. Porque era óbvio que uma opção racionalizada de combate ao terrorismo passaria pelo reforço dos serviços de informações secretos, pelo incremento da operacionalidade policial no que respeita à mobilização de recursos para investigação criminal. Porque, tal como no passado, nunca exércitos prenderam líderes e dirigentes terroristas sem que antes não tivesse havido um trabalho analítico e sistemático de raiz policial.
Porque são organizações - forças armadas e polícias - que pela natureza das funções, pela formação no que respeita ao pensamento estratégico, pela cultura profissional sedimentada numa memória feita de experiências bem diferentes, não conseguem competir nos mesmos territórios.
Nem as polícias sabem conquistar, nem os exércitos sabem investigar. Disparar a eito, ou mesmo cirurgicamente, pode trazer vitórias militares, mas não traz presos, indivíduos que se procuram no meio de multidões ou de esconderijos guardados por cúmplices. Bin Laden não é um inimigo militar. É um criminoso de delito comum. Por isso, um alvo da polícia.
Não foi por aqui que a euforia da vingança quis ir. A vingança nunca produziu resultados serenos, antes abriu as portas à barbárie. E hoje, dois anos depois, mau grado os biliões e biliões de dólares gastos, com a comunidade internacional dividida, os bandidos continuam a monte. Agora juntou-se-lhes Saddam Hussein. E as polícias esperam que a fúria da 'vendetta' se esvaia para que possa trabalhar e cheguem os dias de maior sossego.
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