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Correio da Manhã

Opinião
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6 de Setembro de 2005 às 17:00
Agora que as águas baixaram e os sobreviventes parecem a salvo dos diversos perigos, a histeria entusiasmada em volta de Nova Orleães diminuiu. Mas, durante os primeiros dias da tragédia, a tragédia serviu de festa para os convivas do costume. Na sexta-feira, salvo o erro, o diário francês ‘Libération’ declarava em manchete tratar-se de um “espectáculo cruel para Bush”. É uma maneira de ver as coisas.
Ao contrário de inúmeras luminárias surgidas ao longo da semana, não sou doutorado em aquecimento global, especialista no socorro a catástrofes ou veterano do sudeste norte-americano. Logo, não consigo associar facilmente o furacão à recusa dos EUA em assinar Quioto. Não sei relacionar a demora na ajuda humanitária com a intervenção no Iraque. E sou incapaz de perceber que a eventual incúria federal se prende com a maioria negra de algumas partes da região. Eu limitei-me a contemplar a desgraça e a lamentá-la, no ingénuo pressuposto de que a natureza, à semelhança do homem (ver, por favor, os gans armados), é propensa à destruição. E de que a destruição nem sempre é evitável.
Felizmente, há muitos peritos que não partilham das minhas dúvidas e escrúpulos. Não falo das vítimas, que protestavam legitimadas pelas circunstâncias. Falo dos enviados especiais e dos convidados dos noticiários. E da impressionante quantidade de amadores informados. Os nossos ‘fóruns’ televisivos e radiofónicos, pelo menos, encheram-se de sentenças furiosas na direcção de Bush, o Mau, que foi avisado e não quis prevenir, que deixou morrer porque quem morreu foram pretos e pobres, que não enviou soldados porque os soldados estão ausentes em guerras, e que enviou soldados ao invés de medicamentos e comida. Na Sic Notícias, uma espectadora, decerto empolgada pela eficácia com que combatemos os incêndios, garantia que os portugueses resolveriam a situação num ápice. Entre os acessos de fúria, simulava-se espanto face à “fragilidade da superpotência”, um sentimento que às vezes ameaçava confundir-se com alegria.
Estariam a pedi-las, como disse uma comentadora nacional a propósito do 11 de Setembro? Talvez, com a eterna, e sinistra, ressalva de que não se está contra “os americanos em geral”, mas contra esta administração (eleita, presume-se, por residentes em Saturno, e não pelas populações dos estados afectados pelo furacão, as quais por acaso votaram em Bush). Não importa. Desde que se possa atingir os EUA no processo, qualquer sofrimento alheio constitui, aos olhos de certa Europa, um deleite e uma oportunidade de comício. O ódio a um sistema, a um país e (perdoem o abuso, mas não sei distingui-los) a um povo dá nisto. E isto, como o caos em Nova Orleães, é um espectáculo menos cruel para Bush do que para o bom senso.
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