Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
27 de Outubro de 2009 às 09:00

O novo Governo é feito à imagem e semelhança do primeiro-ministro, com um núcleo duro inamovível e um conjunto simpático de independentes sem qualquer peso político. Perdida a maioria absoluta, o eng. Sócrates decidiu apostar na sua excelsa figura, rodeando-se do seu velho e conhecido grupo de fiéis que, garantindo-lhe uma necessária coesão executiva, não deixa de fechar o Governo a outras áreas e sensibilidades, nomeadamente no interior do PS. Ao mesmo tempo, a remoção de todos os ministros "polémicos", a escolha cirúrgica de vários independentes ligados a algumas corporações e a inesperada promoção de Jorge Lacão a ministro dos Assuntos Parlamentares mostra até que ponto o primeiro-ministro se vai empenhar nas negociações com a Oposição e com os famosos "privilegiados" do passado que passaram, agora, miraculosamente, à condição de parceiros sociais.

No fundo, é como se existissem dois Governos num só, que têm no eng. Sócrates o seu único e improvável denominador comum: por um lado, o primeiro-ministro preside a um Governo político, onde reina a unanimidade e a obediência à palavra do chefe; por outro, preside a um Governo técnico onde reina a simpatia e a vontade de dialogar. Enquanto ele é o mesmo e o seu contrário, o Governo divide-se entre uma "linha de rumo" definida e uma abertura vaga aos vários sectores da sociedade. O discurso do primeiro-ministro na tomada de posse do Governo não deixou de revelar esta difícil conciliação interna: ao contrário de há quatro anos, o eng. Sócrates refugiou--se numa vasta série de banalidades: falou de uma "linha de rumo", definiu três prioridades óbvias, lembrou os seus encontros com a Oposição, mostrou-se aberto e dialogante, garantiu que se ia manter fiel ao programa do PS e, como não podia deixar de ser, reafirmou o seu espírito reformista.

Tudo isto com muita estabilidade e muita responsabilidade à mistura, de forma a condicionar a Oposição e a ganhar mais espaço de manobra. Não se pode dizer que o exercício tenha sido galvanizador. O facto de ter ressuscitado das cinzas, durante o ciclo eleitoral, por muito animador que seja, não aconselha este excesso de voluntarismo, assente num homem só, que tem a seu desfavor quatro anos de desgaste governativo. E, se dúvidas houvesse, o discurso do Presidente da República encarregou-se de as desfazer. O prof. Cavaco Silva pode ter ficado diminuído com o "caso das escutas", mas, como se viu, não está disposto a abdicar do papel fundamental que tem nestes anos de instabilidade.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)