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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Dezembro de 2004 às 00:00
Quando entendeu dissolver o Parlamento, o dr. Sampaio não informou o presidente do mesmo “por puro esquecimento”. Pelo menos, foi isto que o dr. Mota Amaral garantiu após uma audiência com o PR, e acrescentou, naquele jeito que não sabemos se levar à conta da bonomia ou do cinismo, tratar-se de uma coisa “perfeitamente admissível”. Até porque “os esquecimentos acontecem”.
Com o dr. Sampaio acontecem bastante. Esta semana, por exemplo, ele vai ouvir os partidos e o Conselho de Estado, decerto para que lhe recordem as causas que o convenceram a acabar com o Governo. Depois, a memória fresquinha, explicará tudo ao País.
Não se esperam, porém, revelações. Como há cinco meses, seremos iluminados pela retórica da praxe, incluindo as habituais alusões à “estabilidade” e ao “regular funcionamento das instituições”. E a parte divertida é deixada à especulação alheia: foi o artigo de Cavaco? As declarações dos empresários? A demissão de um ministro obscuro? A metáfora da incubadora? O percurso do Sporting?
A mim, palpita-me que, como há cinco meses, o dr. Sampaio decidiu apenas em função do poder que as suas decisões, alegadamente, evidenciariam. Numa ocasião, descobriu a continuidade onde ela não poderia existir; na outra, interrompeu o que, péssimo que fosse, devia ter chegado a um termo natural. De ambas as vezes, impediu os eleitores de se pronunciarem no momento próprio. Em ambas, espremeu a Constituição para demonstrar o que, na cabeça dele, passa por “autoridade”.
Em larga medida, é compreensível. Ninguém se demora uma década na chefia do Estado sem a tentação da posteridade. Até há bem pouco, o dr. Sampaio era unicamente reconhecível pelo discurso errático e pela intervenção inócua. Agora, percebemos que ele é também capaz de mandar – contra a esquerda que o elegeu e contra uma maioria parlamentar. De um surpreendente modo, a morrinha presidencial deixa, já perto do fim, a sua marca. Uma marca registada em dois solitários feitos que foram igualmente os seus maiores tropeções: um Governo inventado a partir do nada e um Governo destituído para coisa nenhuma, na absurda convicção de que um erro corrige outro erro.
Em 2006, o dr. Sampaio terminará o segundo mandato. Um dia, no rodapé da História em que o seu nome constará, talvez se mencionem, além dos recentes desastres, as acções positivas dos seus dez anos em Belém. Eu tencionava lembrar aqui algumas, mas, o que aliás é perfeitamente admissível, esqueci-as.
albertog@netcabo.pt
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