Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
8 de Março de 2008 às 00:30
Ao escolher o Brasil como capital do império, dom João realizava aquilo que havia sido o sonho de alguns visionários. Porém, o príncipe terá ido para o Brasil por razões bem mais práticas: escapar à prisão e evitar, a si e aos seus próximos, a humilhação que a França havia imposto a algumas outras coroas europeias. A pressa com que o empreendimento se organizou não combina com a serenidade da escolha de um destino há muito previsto.
Muito se dividiram, entre nós, sobre a bondade da atitude do príncipe regente.
Uma maioria, a acreditar no juízo da História, condenou a saída, tida como um acto de cobardia que afastava o chefe da monarquia da luta que os seus súbditos travavam contra as tropas napoleónicas.
Um outro grupo, que nos últimos anos parece estar a ter mais adeptos, privilegia a leitura de um recuo táctico, com vista a salvaguardar e preservar a soberania portuguesa.
Não interessará entrar nesta competição valorativa de juízos, mas sim olhar os factos, tal como eles foram, com os efeitos que produziram.
A deslocação da corte para o Brasil preservou-lhe a legitimidade sobre todo o império português – a começar pelo próprio espaço europeu, que não estava isento de cobiças. Verdade seja que a saída, nos moldes em que se processou, subordinou, ainda mais, a corte portuguesa aos interesses britânicos, exacerbando a tutela de Londres sobre os negócios do país. Nada, porém, que não tivesse continuado, sob outras formas, por muito mais do que um século adiante.
Ao estabelecer-se no Brasil, dom João reforçou a autoridade portuguesa sobre o próprio território e, muito provavelmente, evitou o seu retalhamento, quase inevitável se o príncipe regente tivesse sido aprisionado pelas forças de Napoleão. Assim, pode dizer-se que a unidade do Brasil terá ficado a dever-se à presença da família real.
Toda a aventura brasileira da corte portuguesa é hoje objecto de uma intensa curiosidade. Somemos-lhe duas questões.
A primeira tem a ver com a manutenção da família real e da corte no Rio, por mais um década, já depois das tropas napoleónicas terem sido afastadas do Portugal europeu. O que levou dom João a ficar pelo Brasil? Por que não regressou à sede do reino, como era o desejo veemente dos seus súbditos e a lógica aconselharia?
A segunda questão liga-se ao esforço, verdadeiramente excepcional, que dom João e a sua expatriada gente fizeram para garantir um rápido equipamento do Rio e de Salvador, com estruturas institucionais de um nível tanto mais surpreendente quanto o regime português havia persistido, desde a Descoberta, em manter o Brasil num estado muito primário de organização. Porquê esse afã, aliás bem sucedido, de dar ao Brasil o que lhe fora negado até então?
A resposta a estas duas perguntas não existe, mas podemos através delas especular que dom João, ao longo dos seus tempos em terras brasileiras, talvez tenha acalentado a ideia de ali estabelecer a sede definitiva do império. É difícil explicar as coisas de outro modo, afastado o cenário de dom João ser um descolonizador ‘avant la lettre’.
Os tempos viriam a provar que Lisboa não ia por esse caminho. Dom João teve de regressar a Portugal, a contragosto. Para trás deixou um território que, muito por virtude do que por aí realizou, rapidamente se tornaria num país. Tentou ainda o impossível, colocando o filho ao leme do Brasil, sob a sua coroa. Ao fazê-lo, evitou talvez que a independência do país se fizesse através de uma República.
Dom João é uma personalidade bastante mais complexa do que a imagem caricatural que muitos dele alimentam, uma boa parte para compensar, pela ironia, a necessidade de terem de reconhecer a importância daquilo que o Brasil lhe deve. Mas há talvez alguma justiça histórica quando hoje somos levados a convergir no olhar renovado para essa dramática figura da aventura colonial portuguesa.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)