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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Novembro de 2006 às 00:00
Paris, Rotunda do Trocadero, onze da noite. Em frente, a Torre Eiffel iluminada. Nas paredes do jardim principal, a celebração dos heróis e mártires da Primeira Guerra. Chuva miudinha, irritante. Táxis apinhados, motoristas irritados com mais uma gincana ciclista do presidente da câmara.
Vindo do nada, um grupo de uns 20 jovens, brancos e negros, encapuzados, armados de varapaus e barras de ferro, entretinha-se a vandalizar automóveis e casas de banho públicas. Interpelados por cidadãos mais decididos, começaram uma batalha campal.
Um velho proprietário de café, fechando prudentemente o estabelecimento, dizia-me entre dentes: “É por causa disto que o Le Pen se torna popular. M... de vida!” Este é o cenário.
No resto, temos universidades degradadas, e a Sorbonne aviltada, atirada para a categoria de uma escola do terceiro mundo.
É num meio assim que a senhora Ségolène Royal ascende à candidatura presidencial, passado o concurso de beleza das primárias socialistas. Diz que vai ser a chefe de uma “ruptura”. Do outro lado, Sarkozy afirma o mesmo. Mas, com tantos revolucionários no poder, quem ficará como dono das ruas?
DILÚVIO DE CANDIDATOS (1)
Nas últimas semanas, Lisboa serviu de plataforma giratória para dignitários turcos e ucranianos, em busca de apoio na questão europeia. Se Kiev e Ankara aderirem à União, seremos mais 164 milhões de cidadãos, arredondando os números.
Objectivamente, olhemos as vantagens.
Antes de tudo, consagrar-se-ia uma espécie de ‘status quo’ laboral. Ucranianos e turcos já trabalham na Europa comunitária há muitos anos, como imigrantes esforçados e cumpridores. Vivem aos milhões em grandes países como a França e a Alemanha. Pagam impostos, aprendem as línguas locais, constroem as suas famílias no sonho europeu.
Por outro lado, a entrada dos dois gigantes representaria o ingresso de números quase iguais de cristãos (ortodoxos e católicos) e muçulmanos, e deixaria dentro da União os últimos grandes países da sua periferia, que ainda não são membros.
DILÚVIO DE CANDIDATOS (2)
O Parlamento europeu, cujos grupos políticos se fazem de partidos e ‘famílias’ doutrinais (e não de grupos nacionais), enriquecer-se-ia com novos olhares, sensibilidades e aproximações à economia, à cultura, aos direitos fundamentais, à arte da política.
A Europa passaria ainda a controlar vastas reservas de matérias-primas essenciais. Por fim, turcos e ucranianos, nas áreas da defesa e segurança, de há muito que se treinam com os restantes exércitos e polícias europeus, no seio da NATO, da OSCE, da ‘Parceria para a Paz’, e outras iniciativas.
Claro que estes ingressos transformariam ainda mais a ideia original (nos anos 50) de um clube europeu de pequenas e médias potências industrializadas, orientadas pelo eixo Paris-Berlim. Expandindo-se para as margens da Ásia e do Mediterrâneo, a Europa política pareceria, então, uma expansão do mundo grego, e a actualização do império romano.
Isto tem consequências?
Claro que sim. Daí as reticências.
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