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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Outubro de 2008 às 00:30

Vejamos o petróleo. Em Julho, o preço do barril chegou aos 147 dólares e inúmeros ‘especialistas’ puseram a mão no fogo como em breve atingiria os 200. Está a 70 dólares. A superioridade dos economistas sobre o comum dos mortais é que eles falam sânscrito (conhecido na intimidade como ‘economês’)? Claro que uma das tarefas dos telejornais era explicar aos espectadores palavrões como ‘alavancagem’, ‘derivativos’, ‘subprime’, etc. Uma missão de interesse público (embora não saiba se o público estava interessado ou se continuava obcecado com o futebol e as novelas).

Alfred Marshall, o mais influente economista no limiar dos séculos XIX e XX, definia a sua ciência como "o estudo da humanidade nos negócios comuns da vida". Bem, tal conceito também define o jornalismo… Saúdo o esforço das emissoras para desembrulhar a crise de modo rigoroso e abrangente, com análises aprofundadas e analogias históricas relevantes. Bem sei que certo tipo de notícias a TV prefere deixar para o jornalismo impresso, tratando o seu público como atrasados mentais. Não foi o caso. O frenesim era tão avassalador que os canais recrutaram articulistas dos jornais – o melhor foi António Costa, do ‘Diário Económico’. E os titulares desunharam-se. José Gomes Ferreira, da SIC, tem cara de contabilista (não estou a ser sarcástico) e o mérito de simplificar sem reducionismo. António Perez Metelo, da TVI, tem uma pinta tão janota que mais parece um banqueiro dândi – o que, nas circunstâncias, deu jeito. Camilo Lourenço, da RTP, é o mais proficiente tradutor quer dos chiliques do mercado quer do hermetismo ‘economês’. Lição do pandemónio? O costume: com os cartomantes, todo o cuidado é pouco.

Assim como a ocupação do Iraque não degenerou na Guerra do Vietname, esta crise não é nem o reinício nem o fim do capitalismo. O que ela ensina é que as economias virtual e real se entrelaçaram. O resto não passa da ideologia de cada um (se dependesse do PCP, estatizava-se até a privacidade). E lembrem-se do que a história do século XX mostrou: se o Estado compra um circo, o anão desata a crescer…

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