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Correio da Manhã

Opinião
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Rui Pereira

É fazer as contas

Ouvi há meia dúzia de dias, na CMTV, Francisco José Viegas contar uma metáfora sugestiva sobre o capital financeiro, a propósito da épica transferência do futebolista galês Gareth Bale para o Real Madrid.

Rui Pereira 19 de Setembro de 2013 às 01:00

O preço de cem milhões de euros – correspondente ao "valor de troca" de um homem que se dedica a enfiar uma bola num "camaroeiro gigante", na descrição naturalista de Vasco Pulido Valente ao tempo em que era assombrado pelos "índios" da Segunda Circular – é efetivamente obsceno. Mas não é esse o aspeto que agora interessa considerar.

Na dúvida sobre se o Real Madrid dispunha de cem milhões de euros, Viegas contou a seguinte história: A deposita 50 euros para fazer uma reserva num hotel; B, dono do hotel, paga com os 50 euros uma dívida a C, seu fornecedor; C paga uma dívida a D, proprietário de um talho, com os mesmos 50 euros; D salda uma dívida contraída por ter pernoitado no hotel de B, também com esses 50 euros; por fim, B devolve os 50 euros a A, que anulou a reserva. Esta novela feliz explica a essência da atividade financeira: o dinheiro não tem de existir.

O Direito, que começou a declinar há cerca de trinta anos (os nossos dirigentes são agora gestores dinâmicos e pragmáticos, predispostos a sacrificar direitos, liberdades e garantias), explica este fenómeno através da compensação. O dono do hotel tem um crédito e um débito idênticos, que se anulam. A situação só se torna mais complexa porque tem como credor e como devedor pessoas distintas, que desencadeiam pagamentos sucessivos. Porém, a circulação do dinheiro (ou do crédito) nem sempre é tão fluente e equânime, como se constatou no caso BPN.

E se Portugal fosse um gigantesco BPN? Os pobres alemães, a quem alguns dos nossos políticos e empresários dedicam lágrimas comovidas, serão credores burlados? O governo alemão deu a resposta, através do Ministério das Finanças: a Alemanha despendeu 600 milhões de euros com a crise das dívidas soberanas; todavia, em contrapartida, já lucrou 41 mil milhões de euros graças à queda dos juros da sua própria dívida (inversamente proporcional ao aumento dos juros pagos por países como Portugal). Será preciso outro argumento para renegociar os juros?

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