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Correio da Manhã

Opinião
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12 de Maio de 2010 às 00:30

Finalmente, depois de meses de hesitação e desleixo, os governos europeus criaram um mecanismo de garantia do euro. Num fim-de-semana épico, e de gritaria contra os malvados "especuladores", Sarkozy, Merkel, Barroso e compadres acalmaram os mercados com um golpe de magia no valor de 800 mil milhões de euros. Nada mal, principalmente para os alemães, que ainda há semanas sugeriam à Grécia a expulsão do euro.

Com esta demonstração musculada de saúde financeira da Europa, terminará a crise do euro? É provável que sim, pelo menos o primeiro ‘round’. Na verdade, esta crise foi uma espécie de bomba-relógio, sempre a fazer tic-tac, mas sem verdadeiramente explodir. A Grécia vale apenas 2,6 por cento da economia europeia, e sozinha não consegue pôr em causa o euro. Por absurdo que possa parecer, era o mesmo que uma crise no Arkansas pusesse em causa o dólar. Infelizmente, a crise só ganhou proporções dramáticas devido às fracas fundações em que assenta o euro. A Grécia é, tal como Portugal, uma pequena parte do problema. Não era, nem é, o problema fundamental.

Há pelo menos cinco graves falhas no euro. A primeira é a gestão da conjuntura económica. Não faz sentido que, em crise e em expansão, as regras de disciplina sejam as mesmas. Três por cento de deficit é pouco em crise e muito em expansão. A segunda falha deriva das diferentes histórias económicas, ou "assimetrias", como dizem os especialistas. Países habituados a 40 anos de desvalorizações das suas moedas (Portugal, Grécia, Espanha, Itália, Irlanda) não aguentam viver com uma moeda forte sem ajudas específicas. A terceira é a preocupação exclusiva que o BCE tem com a inflação, sem apoiar o crescimento económico, como faz o FED americano. A quarta falha é a perda de poder dos governos nacionais, que lhes tirou capacidades mas não responsabilidades perante os seus eleitores, sem que exista um poder central europeu que garanta a estabilidade económica geral. Por fim, a última falha, corrigida este fim-de-semana, era a inexistência de garantias financeiras contra a insolvência de um país.

Das cinco falhas graves, quatro persistem. Venceu-se o primeiro ‘round’ da crise, mas o resto continuará lá, a degradar e a causar estragos, políticos e económicos. Portugal pode ter afastado o espectro da bancarrota, mas continuará sem crescimento económico, mais uma vez apertado por um torniquete sádico que não vai desaparecer. Que ninguém cante vitória, porque isto vai continuar muito mal.

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