Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
9
20 de Fevereiro de 2005 às 00:00
"Nós falamos delas e elas falam de nós”. É assim que uma amiga minha descreve o que se passa com as empregadas domésticas. As senhoras têm uma apetência especial para conversar sobre a pessoa que trabalha lá em casa. Umas vezes para apresentar queixas, outras para elogiar e, algumas, para comentar o modo de vida delas. Mas a verdade é que essas mesmas empregadas domésticas também não deixam de tecer comentários sobre os patrões. Exactamente nos mesmos sentidos.
Certa vez, a minha cunhada Rita tinha umas análises clínicas marcadas, para realizar numa manhã de segunda feira. Poderia jantar na noite anterior, mas depois deveria ir em jejum total para o laboratório. O grande receio dela era levantar--se e, meio ensonada, abrir a porta do frigorífico para retirar um iogurte. Lá se iam as análises.
Por isso, decidiu pegar numa folha de papel A4 e escrever, em letras garrafais: “Não Comer”. Afixou o papel com recurso a um íman. Assim, nunca se iria esquecer de ir em jejum. Ela recordou-se de que não poderia ingerir alimentos. Lá foi ser submetida às análises. Mas esqueceu-se de uma coisa. Não retirou o papel afixado no frigorífico.
Sucede que, nesse mesmo dia, começava a trabalhar, na casa dela, uma nova empregada doméstica. Deparou com aquele aviso: “Não Comer”. À noite, quando regressou a casa, a Rita tinha a resposta dada no próprio papel que introduzia a proibição. “Minha Senhora, eu já trabalhei em oito casas. Nunca comi nada sem pedir autorização”.
A regulamentação do novo Código do Trabalho introduziu uma alteração mais do que justa. O salário mínimo passou a ser igual para todos. Incluindo os trabalhadores do serviço doméstico. Este aspecto passou completamente despercebido. Não gerou a mínima discussão. Pudera… já praticamente todas as empregadas domésticas ganhavam muito mais do que o salário mínimo.
É uma actividade altamente apreciada. As boas profissionais não têm qualquer dificuldade em encontrar emprego. Obviamente, fazem-se pagar bem. O grau de instrução é muito variável. Eu já tive uma empregada que era enfermeira parteira. Ganhava mais em Portugal naquelas funções do que, no seu país, a desempenhar a sua profissão.
Também tive outra – essa portuguesa – que fazia alguma confusão com as palavras. Chegou a casa e reparou que tinha andado por lá algum ladrão. Telefonou-me e, para confirmar as suas suspeitas, perguntou:
– Quantos alimentos tem a aparelhagem sonora?
– Como, D. Clotilde?
– Eram seis alimentos, não eram? Só lá estão cinco.
O gatuno tinha-me levado o melhor elemento: um amplificador Yamaha.
Nesta matéria, de um modo geral, a juventude é apreciada. Um amigo meu contratou uma senhora, que já não era nova. Tinha nascido cinquenta e cinco anos antes, dizia ela. No entanto, uma vez, baralhou-se com a idade do filho e a que ela tinha quando dera à luz. Pelas contas, já ia em 68 anos.
O pior foi quando passou algum tempo e veio à baila a data de nascimento da senhora:
– Agora é que eu vou mesmo dizer a verdade, Senhor Dr. Eu tenho 74 anos.
A realidade é que era uma boa empregada doméstica. Mas revelar a idade talvez lhe dificultasse a obtenção de emprego.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)