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Correio da Manhã

Opinião
28 de Dezembro de 2007 às 09:00
Menezes tem um herói. Sarkozy. Empolga-se com o seu estilo politicamente despenteado e quer imitá-lo, quando for grande. Quer confrontos, rupturas e guerras ‘libertadoras’ para poder mostrar a inesgotável força destruidora que sente dentro de si. Para praticar vai ensaiando a destruição do PSD.
Até à sua eleição, Menezes era transparente. Exibia ambições, métodos e limitações. Mas o produto era dificilmente vendável. Havia que o reciclar. Vai daí, Menezes queimou todo o guarda-roupa e ensaiou um disfarce, tipo ‘gato escondido com o rabo de fora’. Saberemos sempre o que quer e o que pensa, porque está por apurar a técnica dos transplantes de personalidade. Os milhares de euros que paga à agência que lhe molda a imagem chegam para que lhe digam onde e quando aparecer. O que dizer e não dizer.
Como se vestir e andar. E de quem se rodear. Mas não lhe vende aquilo de que ele mais precisa: ideias sobre a melhor forma de gerir o PSD ou reformar o Estado. Ideias políticas simples, claras e eficientes. Porque para tanto não têm imaginação nem alvará.
Menezes já não vocifera regularmente na imprensa contra os que lhe barram o caminho.
Não chora em público, nem vai às portas das fábricas juntar o seu lamento ao dos trabalhadores. Com isso, julga ter dado um considerável salto qualitativo e sonha já com grandes façanhas ‘à Sarkozy’, evidentemente. Porque a sua alma guerreira não morreu. Está só em dolorosa hibernação. Tal como Blair, Menezes converteu-se.
Para aceder ao paraíso reconheceu os seus pecados passados e fez nova profissão de fé. Abandonou a igreja populista, da qual durante anos foi um destacado e incansável pregador, e aderiu de alma e coração à igreja da recuperação das ovelhas transviadas. A sua fé é grande. Reza e faz figas para que a paciência dos sociais-democratas seja tão magnânima com ele como foi com Santana. E pede só mais um equívoco dos eleitores. Um só. Para que chegue a S. Bento e possa dar cabo de tudo. Como já prometeu.
Não escapará nada. Ambiente, comunicações, transportes, portos, segurança social, legislação laboral, polícias. Vai tudo raso. E o drama é que tem razões históricas para acreditar. Santana não chegou lá? Menezes já não fala por si. A sua ‘nova’ linguagem é uma caldeirada de ambição, medos, expectativas, influências de ‘conselheiros’ tão maus quanto ele e de agências especializadas em transformar lixo em artigo de luxo.
Menezes aceitou uma postura muito singular.
Anular-se, total e definitivamente, como individualidade política central e original. Abdicar de ideias próprias ou, por mera cautela, mantê-las bem escondidas. Para não ter de pedir desculpa ou se desdizer dia sim dia não. Para já a táctica é fazer suas as ideias mestras que julga serem as de Cavaco.
Ou deste e de Sócrates (e até Barroso) naquilo em que eles se encontrem de acordo. Porque julga que desse modo se promove, por simpatia. Menezes é, afinal, um guerreiro envergonhado. Acredita piamente que o tempo lhe lançará o poder nos braços sem que tenha de fazer mais nada para o conquistar. Bastando-lhe evitar asneirada da grossa. E vive de tontas ameaças, mas foge à luta.
Ano novo, manhas velhas. Será este o filme a que, com enjoo, iremos continuar a assistir, em sessões contínuas, durante todo o ano que aí vem.
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