Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
1
29 de Junho de 2004 às 00:00
Pobres cépticos. O Euro nem sequer acabou e os efeitos do ‘prestígio’ já estão aí: bastaram três vitórias da selecção e um português foi escolhido para presidir à Comissão Europeia. Por coincidência, o feito possui implicações várias e, como seria de esperar, nem toda a gente desceu à rua a festejá-lo. Visto que a nação se arrisca a perder o primeiro-ministro, a esquerda e o dr. Manuel Monteiro estão contra ‘sucessões’ e querem que o Presidente da República convoque eleições antecipadas.
Compreende-se a preocupação da esquerda com a legitimidade governativa e a “vontade popular”. O PS, porque vem de um resultado eleitoral simpático e calcula, com perspicácia, que umas ‘legislativas’ súbitas o devolveriam ao poder. O ‘Bloco’, porque imagina ganhar dois ou três deputados e sonha com a maioria relativa dos socialistas. O PCP, porque embora encolha a cada sufrágio, ambiciona ardentemente que todos os governos se demitam após quinze dias de mandato. Quanto ao dr. Manuel Monteiro, as razões são insondáveis, mas decerto importantíssimas.
Dito isto, e apesar do folclore que as relíquias da esquerda se apressaram a montar (veja-se a manifestação ‘espontânea’ convocada por SMS), não se percebe como evitar a antecipação das eleições. Conhecemos a lengalenga: se olharmos a lei à letra, é inegável que o PSD pode indicar o sucessor do dr. Barroso com a maior legitimidade; se estudarmos o carácter do dr. Sampaio, é possível que essa solução seja a desejada, em nome da pretensa estabilidade.
Infelizmente, a legitimidade e a estabilidade não justificam tudo. Os cidadãos votam em deputados anónimos mas pensam num determinado “Zé” para primeiro-ministro. No caso, o “Zé” até tinha correspondência literal: na pessoa do dr. Barroso, que presumimos dono de um pensamento próprio e que ninguém supôs ser trocado a meio do caminho por um Pedro qualquer. Sobretudo um determinado Pedro, que, de sexta-feira para cá, pôs a melhor metade do seu partido a entoar lamentos evangélicos.
Goste-se ou não, a verdade é que a saída do dr. Barroso, ainda que pareça favorável à coligação, deixa o PSD em frangalhos. Pelo menos aquele PSD que os portugueses escolheram em 2002 para governar o País, e cuja morte, a menos que haja uma luminosa reviravolta, está por horas.
Tudo isto graças a um cargo de compromisso e moderada relevância. Uma relevância que os socialistas exageraram entre os basbaques a propósito das (digamos) ‘candidaturas’ de Guterres e Vitorino. Se, em vez de provincianismo, fosse estratégia, teria sido brilhante. Eleições? Que remédio.
Ver comentários