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Correio da Manhã

Opinião
10 de Outubro de 2004 às 00:00
No entanto, creio que os problemas são mais profundos e prendem-se com o desempenho daquela economia. Nos EUA, passados 34 meses desde o início do actual período de expansão, são cada vez mais os indícios de abrandamento económico, não obstante o optimismo dos responsáveis da política monetária.
Uma das causas de preocupação é o decepcionante desempenho do mercado de trabalho. Durante o actual período de expansão foram criados em média 20 mil novos empregos por mês, enquanto que em posições cíclicas idênticas no passado esse valor oscilou entre os 116 mil e os 270 mil. Este crescimento modesto põe em risco o processo de sustentação da recuperação em curso, já que essa decorre da manutenção de elevados níveis de despesa das famílias, que se torna difícil sem criação de emprego.
Recorde-se que a actual recuperação se tem baseado no consumo interno, que beneficiou de um massivo impulso monetário, com as taxas de juro a caírem de 6,5% no início de 2001, para 1% em meados de 2003, e num enorme impulso fiscal que, cortando impostos e devolvendo dinheiro aos contribuintes, inverteu uma situação de excedente orçamental num défice que supera os 4% do PIB.
Findos estes efeitos, a economia tem de encontrar sustentação endógena, através da dinâmica de criação de emprego e do aumento dos rendimentos das famílias, caso contrário poderá cair de novo em recessão, passado o efeito do ‘doping’ monetário e fiscal.
A situação é tanto mais grave quanto os impulsos anteriormente aludidos não fizeram mais do que agravar os desequilíbrios que deram origem à recessão de 2001, nomeadamente, o excesso de endividamento das famílias, a taxa de poupança a níveis mínimos e o défice das contas externas a agravar-se de forma consistente, ultrapassando já os 5% do PIB.
As expectativas incorporadas pelo mercado parecem reflectir, neste momento, esta visão. Parece ser paradoxal que a recente subida das taxas de juro por parte da reserva federal norte-americana, em 75 pontos-base nas 3 reuniões consecutivas desde Junho, tenha sido acompanhada por uma descida de quase igual montante das taxas de juro de longo prazo.
Em regra, a subida de taxas de juro ocorre quando a autoridade monetária, no exercício das funções de manutenção de uma taxa de crescimento sustentável e estabilidade de preços, prevê riscos para a estabilidade de preços derivados de um crescimento económico mais forte. Essa expectativa passa para os agentes económicos e a curva de rendimentos torna-se mais inclinada, com os prazos mais longos a oferecerem taxas de rendimento mais elevadas.
Ao contrário, a curva de rendimentos tornou-se agora mais ‘achatada’, revelando que as expectativas são agora de taxas menos elevadas no futuro, resultado de menor crescimento e menor inflação.
Este é que é, do meu ponto de vista, o principal problema que afecta os mercados accionistas globais, não obstante o petróleo estar a atingir valores máximos e as eleições americanas, extremamente renhidas, adicionarem o seu quinhão de incerteza.
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