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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Fevereiro de 2005 às 17:00
As eleições de hoje só vão determinar o Governo.
É claro que todos esperamos que o próximo Governo seja melhor, sobretudo mais corajoso, formado por pessoas de reconhecida competência, sóbrias na acção e determinadas nos objectivos, capaz de lutar contra a corrupção e impor novos caminhos em todas as áreas de actividade, mas mal andarão aqueles que encarem as eleições como um milagre capaz de substituir o trabalho e a iniciativa individual.
Amanhã, quando o novo candidato a primeiro-ministro começar a fazer os contactos para o Governo que há-de levar a Belém, continuará a ser decisivo a qualidade de trabalho desenvolvido nas empresas e na máquina do Estado.
A sociedade portuguesa não dispensa governantes melhor preparados, capazes de tomarem medidas difíceis e estruturantes – no funcionalismo público, na máquina fiscal, na saúde, na segurança social, no trabalho, no ambiente, na modernização tecnológica, entre outras áreas –, mas acima de tudo precisa de cidadãos mais confiantes, menos órfãos do Estado; mais empreendedores, menos expectantes; mais ambiciosos, menos derrotistas.
Muito do que se passa à nossa volta depende de nós. Sem isso, é bom que se entenda, não haverá nunca primeiro-ministro que nos sirva.
É com esta convicção que hoje os portugueses se devem dirigir às urnas.

A campanha eleitoral foi esclarecedora em relação às alternativas.
Ao centro, no PS e no PSD, as diferenças são menores do que ambos os partidos pretendem. Têm a ver, sobretudo, com a personalidade dos líderes e decorrem da conjuntura dos últimos anos.
A novidade veio dos extremos, e nesse aspecto alguma coisa terá começado a mudar na sociedade portuguesa, até aqui rendida às virtudes do bipartidarismo.
De ambos os lados do espectro político, surgiram propostas tidas como válidas.
À direita, Paulo Portas e o PP amadureceram com a passagem pelo Governo.
À esquerda, o fenómeno Francisco Louçã ainda está em crescimento, principalmente na realidade urbana e Jerónimo de Sousa devolveu autenticidade ao PCP. Do ponto de vista pessoal, Jerónimo de Sousa foi a grande surpresa. Pode ser o homem que o partido precisava para estancar a deserção no sentido da “modernidade” do Bloco.

Ainda assim, o primeiro-ministro continuará a ser escolhido entre o PS e o PSD.
José Sócrates pede a maioria absoluta, mas um dos ensinamentos da Legislatura interrompida foi precisamente o de que pode haver uma maioria parlamentar estável a suportar um Governo sem a necessidade de uma maioria absoluta de um só partido. Resta ver se os portugueses são sensíveis aos apelos de José Sócrates ou o vão obrigar, como a Durão Barroso, a negociar o exercício do poder.
Santana Lopes sabe que tem escassas possibilidades de regressar a São Bento. Todas as sondagens previram a inevitabilidade da derrota que uma grande parte do próprio partido deseja. Não é de todo previsível que a aliança com o PP resolva o que quer que seja. O problema do PSD está nos votos que não consegue ganhar ao PS. Aqueles que pode perder para o PP só agravam e não dilatam o espaço político da direita.

A par da leitura dos resultados eleitorais, e da consagração de José Sócrates e do PS, está preparada para hoje à noite, com os comentadores anunciados pelas diversas televisões, uma caça a Santana Lopes. O PSD vai começar a mexer-se já hoje em directo. Não se esqueça que esta crise foi catalizada com o caso-Marcelo Rebelo de Sousa e que o professor regressa esta noite à televisão, na RTP.
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