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Correio da Manhã

Opinião
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12 de Abril de 2003 às 01:56
Foi a última noite em que os aviões despejaram milhares e milhares de toneladas de bombas. Havia crateras nas ruas, prédios esventrados, gemidos que chegavam de diferentes lugares da noite, o asfalto negro com marcas de sangue escorrido das centenas de cadáveres que se mantinham em poses estranhas naquele espaço tétrico. Já não havia luz nem água na cidade e até as lágrimas tinham secado de vez. Os combates continuavam agora entre forças de infantaria. Ouviam-se os estrondos secos dos canhões e o metralhar ininterrupto das espingardas. Os soldados dos dois lados tinham sede de sangue e disparavam furiosamente contra tudo o que mexia. Matar ou morrer eram as opções que restavam neste pedaço de mundo onde os homens tinham perdido a racionalidade.
De repente e sem que ninguém tivesse percebido como nem porquê nasceu neste inferno uma Rosa. Uma rosa perfeita, cor-de-rosa, aveludada, com pétalas únicas que amenizavam o olhar dos soldados e quase os faziam regressar à sua condição de homens, cheios de humanidade. A Rosa nasceu de um só golpe. Com folhas verdes mas sem espinhos. É uma coisa estranha. Os tanques corpulentos faziam manobras mil para despejarem o fogo que traziam no ventre mas passavam ao lado da Rosa. Os soldados desviavam-se e nenhuma botifarra tocou na rosa. Parecia haver ali, havia mesmo, uma coisa mágica e poderosa que impedia essa destruição. Ninguém bolia com a Rosa. Aconteceu até um fenómeno inexplicável. Os soldados olhavam para a Rosa e não conseguiam manter o olhar. A luz da Rosa ofuscava-os. Havia uma luz, uma espécie de auréola que se desprendia do seu "corpo" que derretiam até aquelas lentes escuras dos óculos "mosca" que agora tanto se usa. Um soldado, não tinha mais de 19 anos, foi o único que conseguiu fixar a Rosa. Mas os seus companheiros garantiam que ele tinha endoidecido. Porque dizia que tinha visto um rosto, sobretudo uns olhos suaves que olhavam com enorme ternura. Há um mistério qualquer nestas passagens da vida. Como floresceu esta rosa na lama da guerra, fustigada por ventos de areia?
Parece que quando tudo está terminado alguma coisa nasce para que nada termine. É um sinal. A Rosa é um sinal que as balas não destroem e faz o mundo começar de novo. Aquela luz está carregada da esperança que desapareceu do coração dos homens e "vai reinstalar" o desejo de viver. Mesmo sem manhãs de orvalho ela acumulará gotículas de água para matar a sede das crianças que não foram apanhadas pelo Napalm. Aquele veludo cor-de-rosa vai apagar as feridas das mulheres que não foram trituradas pelo ferro dos tanques. Aquela força que ela irradia vai atenuar a dor dos que tudo perderam. Os sinais antes vinham do céu, das estrelas que brilhavam de forma diferente. Os sinais agora chegam da terra, saem dela como actos telúricos. É a urgência do tempo de hoje. O céu é demasiado longe. Esta Rosa é um farol que nos redime um pouco dos tantos erros que cometemos. Eu só gostava, nem sei porquê, de a ver um dia destes como o soldado que endoideceu.
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