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Correio da Manhã

Opinião
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27 de Agosto de 2009 às 09:00

Anotícia de que cerca de 80 mil crianças do Malawi – algumas com cinco anos – sofrem problemas terríveis de saúde nas plantações de tabaco – com o equivalente ao consumo de cinquenta cigarros por dia – e que trabalham cerca de 12 horas para ganhar menos de 15 cêntimos passou despercebida.

Em Portugal, felizmente, as coisas não se passam assim. Por ora. Mas há muita fome e há trabalho infantil. Já em Setembro, muitas famílias sem emprego ficarão também sem direito a subsídio e mais empresas vão fechar. Estes são os problemas que interessam. Se a globalização persistir na sua corrida desenfreada, gerando cada vez mais desempregados e deslocalização de empresas, sem soluções, as condições de trabalho vão degradar-se a níveis por agora impensáveis. Cassandra era "louca", mas a verdade é que Tróia ardeu.

Assegurar um futuro digno é um imperativo, mas se não houver a preocupação de reestruturar economicamente o País, de alto a baixo, e de qualificar as crianças na educação... pouco ou nada nos espera.

Ora, as preocupações reais que permitem resolver problemas estruturais continuam longe destes discursos de pré-campanha. Ouvem-se impossibilidades, vulgaridades, dichotes. Muito circo. Mas a última coisa que alguém quer quando tem fome (ou fortes possibilidades de a passar a ter) é circo.

Fala-se muito em investimentos públicos e no aumento das exportações. Só há dois pequenos problemas: os investimentos públicos, tal como anunciados, custam dinheiro que não temos e as exportações implicam que se produza alguma coisa. Ora, nós andamos entretidos com (maus) serviços e o principal, o Turismo, já mal chega para os juros. Não produzimos.

Para onde serão reconvertidos os milhares de trabalhadores saídos das fábricas deslocalizadas e das empresas insolventes?

"Lamento muito", mas vamos mesmo ter de recomeçar a reconstruir o sector agrícola e industrial e, no Mundo, repensar proteccionismos com fundamento nos direitos humanos. Por tudo isso as últimas promessas do Governo são risíveis: agora é diminuir o Estado reformando trabalhadores! As reformas passam a ser pagas exactamente na mesma: os pagamentos do Orçamento passam a ser encargos da Segurança Social e o resultado, aliás, tem sido afastar muitos dos melhores.

Programas sérios e agentes sérios. Ou ninguém vai lá. O fracasso dos supostos pilares da democracia sobrará para o Presidente. Não pensem nem se renovem, não.

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