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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Março de 2003 às 00:00
Comissão Europeia deve hoje aprovar um embargo às aves portuguesas. O ministro da Agricultura minimiza o impacto dessa medida extrema, lembrando que Portugal exporta apenas 3 toneladas das 300 que produz anualmente. Os nossos agricultores assobiam o ministro e exigem mais subsídios.

Isto podia ser uma paródia em três actos, mas não dá qualquer vontade de rir. O assunto é grave de mais para brincadeiras.

O principal significado de um embargo europeu, mesmo sem consequências económicas relevantes, é de decência. E aquilo que toda a União Europeia está a dizer é que este País não é decente na forma como protege os seus cidadãos. Sobretudo naquilo em que eles são mais vulneráveis – a sua alimentação.

A Europa livra-se, pois, dos nossos frangos e galinhas suspeitas. Mas os portugueses continuam alarmados, até porque descobriram agora que consomem 99% da produção nacional. E qual é a reacção normal, quando existe alarmismo? Deixam de consumir. E o que acontece quando as pessoas não compram um determinado produto? Os produtores ficam em grande dificuldade.

Por isso se entende a assobiadela que o ministro Sevinate Pinto – Pinto, que nome mais ingrato, para um ministro da Agricultura, numa altura destas... – ontem recebeu no congresso anual da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Porque os efeitos económicos são graves sim. E não é por causa de um possível embargo europeu, mas pela drástica quebra que já está a ocorrer no consumo interno.

Os consumidores estão inquietos e os produtores sem negócio. Todos os produtores, quando apenas uma minoria está sob sequestro por supostamente ter utilizado substancias proibidas.

O Ministério da Agricultura sabe há meses que havia riscos elevados para a nossa segurança alimentar colectiva. O ministro reconhece que a 28 de Janeiro o assunto chegou ao seu conhecimento. 28 de Janeiro?!!!
Hoje é 10 de Março e, quarenta dias e muita pressão depois, apenas três explorações suspeitas são conhecidas. Faltam as outras 40. O que significa que continuam todas a ser suspeitas.

É demasiado tempo. É absolutamente inadmissível. Não existe um único valor que se coloque acima da saúde pública. Nem o "segredo de Justiça", que é a desculpa idiota que tem sido dada para explicar este silêncio longo e inexplicável.

Assim e enquanto toda a população for mantida na maior das ignorâncias, enquanto não forem dadas garantias de que os mecanismos de controlo alimentar funcionam a cem por cento, enquanto não forem severamente punidos os burocratas responsáveis por este atentado à segurança alimentar, está sob embargo o Pinto. O ministro Sevinate que, por muito sério que seja, tem de ser o primeiro a responder por esta trapalhada toda.

E, já agora, os agricultores que tanto reclamam do Estado, que pedem subsídios quando chove muito, quando chove pouco ou quando não chove nada, que lhe exijam afinal aquilo que só ao Estado compete assegurar – fiscalização e castigo.

Da parte que me toca, enquanto cidadão desconfiado dos alimentos que o meu País produz, descrente de um Estado que é incapaz de discernir entre produtores honestos e escabrosos, entre explorações que cumprem as regras e as que laboram clandestinamente, prefiro os "importados".

Não é uma questão de nacionalismo. Apenas de sobrevivência. Se um ministro não entende isto, não é ele que deve ser demitido. É todo o Ministério que não serve para nada.
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