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Correio da Manhã

Opinião
8
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Ignoro se o tal colunista de um semanário continuará a escrever, apaixonado pelos comentários que faz sobre os juízes.
Eu vou prosseguir a contar casos de advogados que prestaram serviços de relevo.
Uma senhora idosa foi abordada por uns vizinhos que se tinham acabado de instalar numa casa próxima da dela. Pediram que a mulher lhes emprestasse o seu próprio bilhete de identidade e o cartão de contribuinte. Disseram que era para tratar de uns assuntos relacionados com o atestado da Junta de Freguesia. De boa fé, a senhora cedeu os documentos.
Tempos depois, a pobre da mulher recebe uma carta enviada por um banco onde nunca tinha aberto conta. Exigiam-lhe o pagamento de mais de 10.000 euros, relativos a um empréstimo em seu nome. A livrança tinha uma assinatura parecida à dela. Mas qualquer pessoa perceberia tratar-se de uma falsificação.
A senhora não procedeu ao pagamento, explicando que nunca se deslocara sequer ao balcão onde tinha sido pedido o empréstimo.
A livrança nunca fora assinada por ela e muito menos na presença de um empregado bancário. Alguém poderia ter feito um penteado e uma maquilhagem de modo a fazer-se passar por ela, exibindo o bilhete de identidade. Ainda que tal cenário espantoso tivesse sucedido, o empregado bancário deveria ter verificado que a assinatura não era a correcta. Excluindo esta hipótese fantástica, tinha de se concluir que algo de errado se tinha passado no próprio pedido de empréstimo.
A Polícia Judiciária desmontou a rede que realizou esta burla e muitas outras semelhantes.
Mesmo assim, o banco insistiu no processo judicial contra a senhora, que nada devia a ninguém. Foi determinado o desconto de uma terça parte da sua pensão de reforma em benefício da instituição bancária, até total pagamento da quantia do empréstimo.
A senhora entrou em dificuldades económicas e pediu auxílio a uma advogada, que nada cobrou pelos seus serviços.
A causídica requereu uma comparação de assinaturas ao Laboratório de Polícia Científica. Confirmava-se a falsificação.
A advogada já sabia que tinha a causa ganha e que o banco iria perder.
Podia ter optado por uma estratégia agressiva. Se quisesse, requeria a condenação por litigância de má fé. Faria prova vexatória sobre o modo anómalo como o nome da senhora fora envolvido num empréstimo que nunca contraíra. Contudo, perder-se--ia tempo e dinheiro.
A advogada optou pelo bom senso e encaminhou a instituição bancária no mesmo sentido. Explicou que a imagem do banco ficava duplamente manchada. Continuando com o caso, estava a defender a validade de um empréstimo cheio de irregularidades. Por outro lado, mantinha em tribunal um processo condenado ao fracasso, pedindo dinheiro a uma pessoa que não era devedora de nada.
A instituição de crédito compreendeu e desistiu. O dinheiro entretanto descontado à vítima foi devolvido.
Parabéns à advogada. Como retribuição teve algo muito melhor do que um cheque por honorários: a sincera gratidão da senhora idosa e o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido.
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