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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Outubro de 2010 às 00:30

As coisas, agora, são diferentes e não custa entender as preocupações dos estudantes, bem como os tormentos por que passam na busca de uma actividade que lhes faculte o pão para levarem à boca. A alegre inconsciência de hoje dará lugar a muito desespero e frustração. Aliás, ascendem aos milhares os jovens licenciados vergados ao pesadelo da procura de um emprego e obrigados a prolongar a sua dependência dos pais, forçados que são a adiar o objectivo da autonomia de vida. É natural, pois, que Portugal seja recordista no consumo de medicamentos para a depressão.

O próximo Orçamento reflecte esse ambiente de miséria e falta de perspectivas que vem corroendo o País. O quadro de recessão para que apontam as contas públicas esticará o ténue fio a que a nossa pseudo-independência económica se agarra, sempre em risco de partir. Estamos a pagar a factura da irresponsabilidade de sucessivos governos e da visão imediatista da política, dois dos principais factores inviabilizadores de um modelo económico capaz de romper com a asfixiante presença do Estado e disciplinar a doentia relação do mundo empresarial com o Poder, que, tipo polvo, tudo condiciona e quer controlar. As negociações que Sócrates se vê obrigado a fazer com o PSD, não sendo uma farsa, não significam mais do que um ritual obrigatório perante todas as peripécias do processo de radicalização de posições, que conduziu os protagonistas a um beco sem saída. A obstinação que até agora caracterizava o Governo acaba de ser deitada por terra, culminando no frente-a-frente negocial de Teixeira dos Santos com Eduardo Catroga, antigo ministro das Finanças, que, ainda há dias, não hesitava em dizer que este "é um Orçamento mau" e que o actual Executivo deixou encurralar a economia. Veremos até onde vai a capacidade de cedência, residindo a curiosidade maior em saber se o Governo aceita subtrair um ponto ao aumento de IVA que propôs. Para o líder do PSD, este Orçamento transformou-se num pesadelo, dada a gestão pouco sábia do dossier. Acabou por se entalar e vai comprometer-se demasiado com a austeridade de Sócrates, mesmo que para evitar a queda do País no abismo. Como se ele já lá não estivesse...

No meio de toda esta degradação do cenário político, uma certeza cada vez maior: eleições legislativas a seguir às presidenciais que reelegerão Cavaco Silva são um cenário já intransponível. Só falta marcar a data.

SOLTAS

DO BOM AO RIDÍCULO

Embora em linguagem críptica, Cavaco não evitou lançar uma farpa a Sócrates. Ao destacar o espírito dialogante de Teixeira dos Santos, acentuou a intransigência do primeiro-ministro. Na mesma semana, viu Mar-celo ser seu arauto quanto à data para desfazer o tabu da recandidatura. Combinação ou abuso de confiança?

A MEDÍOCRE BANALIDADE

Não se consegue perceber o que se passa com o Benfica. A derrota em França acentuou as debilidades de uma equipa que, tal como está, jamais poderá ter a veleidade de aspirar a ganhar seja o que for. É triste reconhecer mas Vieira tem mais com que preocupar-se do que a guerra verbal com o Porto.

DAMA DE ESPADAS

Boa companhia de viagem este último livro de Mário Zambujal. Escrita suave, porém bem trabalhada, um fino sentido de humor e uma apurada percepção das relações que o impulso das paixões desperta. O coração de Filipe a bater por Eva Teresa proporciona páginas de puro prazer.

NOTAS (Escala de 0 a 20)

13 - EDUARDO CATROGA

O trunfo que Passos tirou da cartola para negociar o OE. O prestígio do ex ministro das Finanças funciona como o pronto-socorro do líder do PSD, após a desorientação estratégica.

8 - JOSÉ SÓCRATES

O Governo continua a contratar adjuntos e assessores, apesar do congelamento de admissões na função pública. É a velha máxima "Faz o que eu digo, não o que eu faço". Vergonha.

8 - JORGE JESUS

Mais uma derrota. Agora na Liga dos Campeões, prova em que prometeu que o Benfica daria cartas. De favorita, a equipa parece condenada a lutar pela presença na Liga Europa. É curto.

7 - ISALTINO MORAIS

Novamente arguido. O autarca de Oeiras está a ser investigado num caso relacionado com permuta de terrenos em Sesimbra. Que mais tem para nos surpreender? 

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