Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
6
29 de Janeiro de 2008 às 09:00
Vai ao rubro a discussão sobre o papel das agências de comunicação na política. A direcção do PSD pretenderia confiar aos serviços de uma agência, boa parte da gestão política do seu grupo parlamentar. Santana Lopes não gostou e percebe-se porquê.
O modo como tal intenção foi noticiada, representava um atestado de incompetência aos deputados do PSD. A liderança parlamentar ficava desautorizada e a liderança do partido asseguraria, porventura, um maior peso nas decisões dos deputados por via de uma agência de comunicação!
Surpreendente? Nem por isso. A vida pública em geral, e a política em particular, tendem a plastificar-se: perdem em densidade o que ganham em leveza. O bom desempenho público confunde-se com ilusionismo: criar na opinião pública sensações, mesmo sem correspondência com a realidade. Ilusões, diz-se agora, numa graduação positiva daquilo que era usual classificar tão-somente como mentiras.
O gesto é tudo; ou quase tudo: uma frase certeira também dá jeito. O efeito perdura na cabeça do público e dos jornalistas, como cortina de fumo que cega e inebria, dispensando não apenas a investigação, mas, por vezes, a mera confirmação dos dados avançados. Do que é dito ou anunciado não há sequência nem consequência, esvai-se a noção de responsabilidade. O relativismo também mora aqui. O primeiro-ministro, o actual ou outro, pode negar amanhã os factos que ainda ontem assumia como verdadeiros.
Poucos reparam e muitos não se importam, por haver muito mais quem assim também proceda. Importa, isso sim, utilizar o registo adequado, a pose certa, a entoação própria e a mais viva indignação pessoal, sempre que alguém tiver a desfaçatez de pôr em causa a seriedade do protagonista. A forma engoliu o conteúdo, disfarçou-o e, sempre que necessário, até lhe muda o sentido.
A culpa é das agências de comunicação? Terão a sua quota-parte de culpa, embora muito do trabalho que produzam até possa ser útil, desde que não pretendam substituir-se aos eleitos ou aos responsáveis das empresas.
Mais grave é um sistema de vasos comunicantes criado nas últimas décadas entre política e jornalismo, particularmente delicado num País pequeno em que todos se conhecem. Este sistema de vasos comunicantes permite e até promove o vaivém entre gabinetes governamentais e redacções, num movimento cíclico em que quase ninguém fica de fora.
É inteiramente legítimo que haja profissionais decididos a trocar os meios de comunicação pela vida governamental ou empresarial, mas a constante troca de camisola reduz o distanciamento crítico, amolece a exigência e degrada a credibilidade – da política e da comunicação.
Esperteza saloia? Longe disso! Esperteza bem urbana, baseada na lógica da conveniência pessoal que é, neste caso, a lógica da conivência.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)