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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Julho de 2010 às 00:30

Na política portuguesa, a sofisticação dos raciocínios é mais ou menos a mesma. Basta olhar para o alegado "debate" sobre as propostas para a revisão constitucional do PSD.

É possível discordar delas? Com certeza que sim. Mas vivendo nós num mundo atravessado por uma crise dramática e, sobretudo, tendo qualquer pessoa informada a perfeita noção de que há um modelo de Estado social à beira do esgotamento, discutir aquilo que são questões centrais do nosso tempo – como a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde, a gratuidade da Educação ou o modelo de emprego – não pode ser despachado como uma ideia bizarra ou eleitoralista. Pode-se discordar de Passos Coelho, mas não da pertinência deste debate.

Ora, qual foi a primeira reacção dos nossos belos partidos às propostas do PSD? Para o Bloco de Esquerda, trata-se de uma "sentença de morte do Estado social". Para o PCP, de "uma destruição do regime constitucional". Para o PS, "de uma proposta estapafúrdia". Para o CDS, de "tacticismo político". Para o socialista António Arnaut, de "uma tentativa de golpe de Estado". Para Manuel Alegre, de "uma mudança de regime". E o próprio primeiro-ministro, antes de descobrir que a revisão da Constituição era afinal "um assunto sério", afirmou que tudo não passava de "um estratagema constitucional só com vista a agravar a instabilidade política".

Isto, sim, são argumentos sofisticados e intelectualmente honestos. Isto, sim, é gente séria, com vontade de avaliar e discutir o sistema que nos rege. As birras dos meus filhos afinal não são birras. São debates políticos.

SINAIS DE TRÂNSITO

PAVIMENTO ESCORREGADIO: ROBERTO, FUTEBOLISTA

O guarda-redes do Benfica parece ter 4,25 milhões de euros a pesar-lhe em cada mão. Jorge Jesus é excelente a treinar. Mas será excelente a contratar?

TURISMO RURAL: CAVACO SILVA, PRESIDENTE DA REPÚBLICA

A simpatia de que Cavaco tem sido alvo em Angola não tem paralelo em Portugal. Com banhos de multidão daqueles, até eu ficava amigo de José Eduardo dos Santos.

PRODUTOS EXPLOSIVOS: PINTO MONTEIRO, PROCURADOR-GERAL

As escutas entre Sócrates e Vara foram todas devidamente destruídas. Todos os registos transformados em cinza. O regime pode enfim repousar em paz.

AMOR À PRIMEIRA VISTA: O DOCE SABOR DE MARIA CLEMENTINA

Quatro músicos portugueses alegadamente anónimos – chamados Tiago Bettencourt, Maria de Medeiros, Samuel Úria e Nuno Rafael – reuniram-se para formar os Maria Clementina e compor quatro temas para um EP distribuído gratuitamente pelo sumo B!. Uma forma original de fazer marketing que produziu ‘Veio a Maria Clementina’, desde já uma das grandes canções deste Verão.

15 SEGUNDOS DE FAMA: O ESTRANHO MUNDO DO REI DOS GNOMOS

O país dos brandos costumes é de quando em vez abalado por histórias bizarras e golfadas de violência, que por serem raras ganham ainda maior amplitude. Todo este caso de Francisco Leitão, o ‘Rei dos Gnomos’, com as suspeitas de triplo assassinato, as previsões apocalípticas, os vídeos do YouTube, mais a inacreditável casa-castelo de São Bartolomeu dos Galegos, compõe um melting pot espantoso, onde a realidade manifestamente ultrapassa a ficção. Não fosse a tragédia palpável da morte de três jovens, dir-se-ia estarmos diante não de um caso de polícia, mas de um filme de David Lynch.

ENTREVISTA IMAGINÁRIAS: HELENA ANDRÉ, MINISTRA DO TRABALHO

"SE DISSER A PALAVRA ERREI POSSO IR DESTA PARA MELHOR" 

– A senhora ministra disse ao DN que haveria um ajustamento dos salários no valor de 1,4% em 2011…

– Peço desculpa, mas isso não é correcto. Como já tive oportunidade de explicar, essa manchete é um equívoco que certamente resulta de um mal-entendido.

– Ó senhora ministra, mas toda a gente ouviu a gravação. A existir algum equívoco foi seu, não é?

– Não houve nenhum equívoco meu, houve um mal-entendido. Um-mal-en-ten-di-do.

– Mas porque é que tem tantos problemas em dizer "errei"? "Fiz asneira"? "Não devia ter dito aquilo"?

– Temo pela minha cabeça.

– Teme ser corrida do Governo?

– Não, temo mesmo pela minha cabeça. Está a ver aqueles espiões com a ampola de cianeto nos dentes? Neste Governo há um sistema parecido: se alguém pronunciar junto de um jornalista qualquer dos 29 sinónimos da palavra "errar", a ampola quebra-se e a gente vai desta para melhor.

– Está a brincar, certo?

– Alguma vez ouviu José Sócrates dizer "enganei-me"?

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