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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Fevereiro de 2012 às 01:00

Os mortos mandam recados por eles: estou benzinho, amo-vos muito, perdoo qualquer coisinha. Quem não gostaria de ouvir uma mensagem destas? É assim que os mediúnicos ganham a vida; as chamadas para a Morte devem ser caras. Coisa extraordinária, a televisão: até dos mortos autênticos faz entretenimento. Ambos os programas fingem que são entretém muito a sério – mas querem ser "um espectáculo", como a TVI define o seu ‘Depois da Vida’. Para não desconfiarmos, as apresentadoras dizem que os mediúnicos British são super-especialistas, até falam em universidades, olaré, e as polícias pedem-lhes ajuda quando não encontram cabelos para o ADN. Depois, é um festival de descobertas. Uma das mediúnicas figuras da TVI conversa com eles, tipo ao telemóvel, e a outra faz desenhos dos mortos: uma autêntica equipa audiovisual.

Os da SIC assim como que deslindam crimes, através dum "Alô Alô" com as vítimas. Sendo televisão, seria mais empolgante ver--se os mortos. Mas aqui os mortos só falam; isso de ver seria pedir demais a estes programas de ver. Os gregos resolveram o problema de (não) se ver os mortos com o mito de Orfeu, que aceita a condição dos deuses infernais para o deixarem ir buscar a sua Eurídice: só poderá olhá-la ao chegarem à superfície. Já quase cá em cima, Orfeu não resiste, volta--se para ela – e uma força irresistível devolve-a aos Infernos. Prudentes, SIC, TVI e seus quatro telefonistas com a Morte não mostram os mortos, caso contrário percebia-se a natureza do entretenimento; tudo se passa via áudio; e os desenhos na TVI nada mostram porque são abaixo de cão. A humanidade não vive sem crenças que a deixem enfrentar o inexplicável e a tragédia. Com o fim da religião de Estado e a perseguição da religião maioritária, abriu-se caminho à magia nos media. Qualquer área de acção da magia é bem-vinda em todo o tipo de programas, das reportagens aos talk shows e à ficção, passando por este entretém com mortos portugueses falando com British. Uma das consequências da laicização das principais estruturas da sociedade foi a ascensão da importância social da magia de curandeiros, leitores da sina e das cartas. Só é preciso embrulhar-se a coisa com uma pitada de realidade, ou de "reality". O programa da SIC chama-se ‘Até à Verdade’. Quem o veria se se chamasse ‘Até à Mentira’?

A VER VAMOS

ALEGADOS CULPADOS, ALEGADOS INOCENTES

Qual ‘alegado’! Nas notícias, o homem de Beja nem um segundo teve de presunção de inocência. Quando se trata de acusados anónimos ou despossuídos, adeus presunção. Se forem conhecidos, ricos, políticos, ei-la: são todos presumidos inocentes – ‘alegados’. Obedecendo a valores da classe dos mais poderosos, com um fortíssimo discurso a favor dos seus que vão a tribunal, a TV faz justiça de classe mediática: desconhecidos? Culpados. Conhecidos? Alegados. De recurso em recurso, de prescrição em prescrição, muitos conhecidos acabam mesmo por ser inocentados. Mas a opinião pública considera-os culpados, por duvidar do processo de recursos e prescrições. Drama português: o direito impõe ‘alegados culpados’, a opinião pública culpa ‘alegados inocentes’. 

JÁ AGORA

PROGRAMAS EM AUTOPROMOÇÃO

Numa destas tardes televisivas, a RTP 1 entrevistava um responsável do seu serviço de rádio; no mesmo instante, a SIC promovia um dos seus programas da noite, entrevistando dois protagonistas; e na TVI faziam-se perguntas acerca de cenas de uma das suas telenovelas. Isto é, os três programas da tarde ao serviço da promoção do fluxo dos próprios canais. Que pobreza. 

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