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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Dezembro de 2007 às 00:00
Vi com os meus olhos aquilo que vinha percepcionando à distância e, desde já, quero deixar bem claro algo que me parece de extrema relevância: em Portugal, fala-se daquilo que não se sabe e, em muitas das situações, quando se sabe, não se fala.
O futebol em Portugal vive em calamitoso estádio de ignorância. A informação chega pelo cruzamento de várias informações, o tráfego a certa altura fica condicionado e é cada vez mais intenso e rápido. Para a opinião pública passa alguma coisa, mas não passa muitas vezes o essencial.
Passa a intriga, passam os ‘jogos florais’, descontextualiza-se uma afirmação mais arrojada de um pensamento sustentado e os casos aí estão em profusão a animar as ‘conversas de café’.
A imprensa desportiva, também no plano da opinião, ainda que esta seja livre, não deve expressar, no âmbito das ‘estratégias editoriais’, o conjunto das ‘conversas de café’. É isto que, de algum modo, está a acontecer. Tem de ir mais longe na qualificação dos seus quadros. Há por aqui cada vez mais pessoas menos preparadas e com experiência suficiente para falar do que sabe. Defende-se o clube do coração, defende-se o ‘lóbi da paixão’, identificam-se os inimigos e o jogo da inveja faz o resto. Constrói e destrói consoante os ditames da oportunidade e da mediocridade.
(No próximo dia 12 completarei 32 anos ligados à imprensa desportiva e muito particularmente ao futebol. Comecei por baixo, conheci as realidades dos escalões secundários e do futebol distrital, empenhei-me muito seriamente na ideia de que o futebol profissional começa na qualidade da mecânica da formação, denunciei mentalidades pequeninas e subversivas, antes de estudar e dar-me ao conhecimento do futebol ao mais alto nível.
Sinto que isso vale alguma coisa, mas sinto, também, que as gerações de jornalistas mais jovens acham que o estudo, a preparação e o conhecimento podem ser substituídos por ‘cinco minutos de conversa fiada’ e muito chico-espertismo.
Não é o caminho).
Há pessoas muito válidas no ‘mundo do futebol’. Pessoas que o grande público não conhece mas alimentam, sem ruído, grandes máquinas como é o caso do Manchester United. Quase nada do que acontece é por acaso.
Aqui, tudo se confina à sorte e ao azar e às lógicas de poder.
Aconselho, desde já, aqueles que perdem o tempo, aqui, com ‘polémicas da treta’, sobretudo aqueles que lidam com milhões à frente dos ‘seus’ clubes, a não aproveitarem as viagens apenas para irem às compras e fumar charutos – façam isso, se quiserem, mas aprendam alguma coisa com as pessoas que são capazes e têm vocação para ensinar.
Começo pelo lado desportivo.
Segunda-feira, à noite. Chuva miudinha, frio, Old Trafford com pouco mais de 75 000 pessoas. Ambiente fantástico, dentro e fora das quatro linhas.
Tenho sorte: é uma grande noite para Cristiano Ronaldo. Marca dois golos, sofre uma grande penalidade do tamanho do Mundo e perde a oportunidade de conseguir o seu primeiro hat-trick ao serviço do United.
Um jogo de grande intensidade, o Fulham a fechar todos os espaços e o Manchester a tentar criá-los. É aqui que entra a ‘marca portuguesa’.
Alex Ferguson dizia-me qualquer coisa como isto: “Aqui, já quase só se fala português”.
Percebe-se: o peso de Carlos Queiroz, Cristiano Ronaldo, Nani e Anderson é real. Não é algo que se possa dizer como cortesia ou simpatia ou para servir de arma de arremesso contra alguém.
É uma realidade que se sente dentro e fora das quatro linhas. O jogo do Manchester está aportuguesado, latinizado, sul-americanizado. Os contributos de Tevez e Evra também se fazem sentir.
O futebol inglês mantém o seu espírito (abertíssimo) mas não expressa mais a lógica do ‘kick and rush’. É um futebol muito mais fantasioso, às vezes a jogar-se em pequeníssimos espaços.
Estava a assistir ao jogo e falava com os meus botões: a grande evolução do futebol inglês resulta no facto de ter compreendido que é preciso fechar os espaços, sem perda de intensidade e com acréscimo de fantasia. Os italianos não evoluíram porque jogam como sempre, com o espírito do ‘catennacio’: não precisaram de aprender a saber fechar os espaços...
Segunda verificação: o papel de Carlos Queiroz na estrutura do United. Crucial. Grande respeito por esse papel. Neste momento, ele é o grande mentor do futebol do Manchester.
Ferguson tem um estatuto intocável, mas o operacional é Queiroz, tão mal-amado aqui na paróquia por razões difíceis de explicar. Nos jogos e nos treinos e em tudo o que diz respeito ao funcionamento interno do United, inclusive na área do recrutamento.
Uma cultura de grande seriedade que, em Portugal, não é reconhecida nem se perde tempo a tentar entender.
O maior ‘bluff’ do futebol (português) é a própria organização que o sustenta – sem trabalho, princípios de ética e transparência – e todos aqueles que falam dele ‘de cátedra’ sem dele saberem coisa nenhuma.
NOTA – Não há Europa sem África e África sem Europa. Os problemas entretanto achados podem fazer parte da solução. De uma globalização mais eficaz e menos egocêntrica.
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