Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
4
4 de Julho de 2004 às 00:00
Onze contra onze. Uma bola aos saltos, milhões de olhos ansiosos colados no rectângulo relvado. O que é o futebol, afinal? Um jogo, uma paixão?
Se fosse apenas um jogo, não teríamos esta festa que cobriu as paredes do País, que nos levou a arrancar, em gritos, o hino de Portugal de dentro da alma. Não teríamos chorado ao fim de cada etapa superada, não teríamos corrido para as ruas. Não teríamos ficado sem palavras, gritando apenas por Portugal, como se esse grito tivesse de chegar ao fim da rua, ao fim do Mundo. Nunca as ruas teriam estado tão desertas sempre que a equipa entrou em campo, connosco todos ali em redor, autênticos guerreiros pintados, à espera do gooooolo da vitória. Se fosse apenas um jogo, eles, os rapazes, a nossa equipa, não teriam sido aplaudidos como heróis.
Se fosse apenas um jogo, nada disso teria acontecido. Não. O futebol é muito mais. Pode ser tudo. Precisávamos das vitórias para voltar aos tempos dos sonhos, em que se acredita que tudo pode ser possível. Só na irresponsabilidade dos sonhos podemos ser felizes. Durante os jogos, fomos felizes e gostámos de ser portugueses. Agora que temos o País e a alma forrados com as cores da nossa bandeira, não vamos desistir. Devemos isso à nossa selecção. Devemos isso ao nosso futuro.
Nestes dias em que os campos de futebol se converteram em campos de batalha, compreendeu-se definitivamente como a televisão é essencial na nossa vida. Foi através da televisão que a magia se estendeu a cada cidade, a cada bairro, a cada casa, a cada um de nós. Na verdade, sempre que Portugal entrava em campo, não eram onze contra onze. Do nosso lado estavam, pelo menos, dez milhões a desejar a vitória.
Há coisas difíceis de explicar. O futebol é uma delas. Se agora alguém de um outro planeta chegasse até nós, como lhe explicaríamos que os jogos de Portugal foram todos de vida e de morte? Que durante os eternos minutos dos jogos, em que estivemos todos de olhos pregados na televisão, nada mais importava na nossa vida? Estávamos todos ali para todo o sempre.
Quando Scolari deu origem àquela polémica na Imprensa, a propósito da sua expressão do jogo de “mata-mata”, Manuel Alegre, num texto publicado no espanhol ‘El Pais’, veio deitar alguma água na fervura. Disse ele, e cito-o de cor, que o nosso treinador não tinha razão. Aquele jogo não iria ser de vida ou de morte. Iria ser muito mais do que isso. Iria ser um jogo de futebol.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)