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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Maio de 2007 às 09:00
Valeu a pena. Desde a declaração de Marques Mendes a retirar o apoio político do PSD a Carmona Rodrigues, os partidos da oposição, excitadíssimos, apressaram-se a afiar as facas. O ainda presidente da CML estava, desde ontem, morto e enterrado. Já se indicavam candidatos.
Prestimosos voluntários já se sentiam sentados na cadeira presidencial. Já se discutiam cenários e coligações. Já se exigia a dissolução da Assembleia Municipal. Mas às 20h15 de ontem ressuscitou. E aqui se demonstrou, mais uma vez, a fantástica leviandade dos nossos dirigentes políticos.
Carmona, uma espécie de virgem desajeitada que em má hora se deixou seduzir pelo mundo da mais sofisticada prostituição, que é a nossa política, afinal já deixou a virgindade pelo caminho. A guerra em nome de uma duvidosa moralização da vida pública, imoral de mais para se regenerar com pensos rápidos, afinal ficou adiada.
A Câmara de Lisboa é um troféu e um palco muito apetecível, mas, por isso mesmo, em vez de ser um pacífico local de trabalho tornou-se uma sangrenta arena romana. E Carmona irá ter vida negra a não ser que as habituais piruetas do PS lhe proporcionem uma extensão de Oeiras. A queda de Carmona há muito passara a ser o objectivo principal de bloquistas, comunistas, socialistas e muitos sociais-democratas. Que agora terão de mudar radicalmente as suas estratégias. Mendes ficou mais uma vez com o menino nos braços.
Carmona aprendeu muito e proporcionou-nos este saboroso golpe de asa.
E quem se vir tentado a acreditar que a saída de Carmona seria uma vitória da ética que se desiluda. Carmona não é Isaltino. E a ética é um conceito muito difícil de explicar aos nossos políticos e autarcas. Recordemos, aleatoriamente, as mixórdias de Jardim, os percursos “ideológicos” da quase totalidade dos ministros dos últimos governos, as desditas de Judas em Cascais, a ousadia e obstinação dos senhores presidentes da Câmara de Oeiras, de Gondomar, de Felgueiras e, mais recentemente, Salvaterra.
Essa história da ética, para os nossos expeditos mas levianos políticos, é coisa de ociosos filósofos gregos e não de quem tem de fazer pela vidinha. A ética não reduz o défice, não aumenta o PIB, não baixa o desemprego, não faz aumentar as exportações, nem enriquece políticos e autarcas.
Em suma, não serve para nada. É um empecilho. Uma canga que lhes pesa como chumbo. Falar de ética aos nossos políticos é pior do que exibir um crucifixo ao diabo. Endoidecem. Mas não perdem o reflexo da piranha. Quando sentem o adversário ferido avançam para o destruir e justificam a sua fúria destruidora fingindo-se possuídos por altíssimos valores morais. Mas a ética das nossas estrelas eleiçoeiras é a das torradeiras, dos microondas e das inaugurações de 200 metros de estrada.
Como o factor Pina Moura demonstrou, raros são os que andam na política por paixão. Limpa, nobre, absoluta. Os que lá andam recitam obedientemente as suas ladainhas para que Deus os ouça enquanto percorrem, cada vez mais penosamente, um caminho que os leve a porto seguro. Que na política nunca encontrarão. Encontrado esse paraíso, actualizam as suas preces e anunciam publicamente a verdadeira (e sempre ocultada) vocação.
Daí o especial sabor deste episódio.
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