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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Setembro de 2013 às 01:00

Criada nos anos 20 como monopólio do Estado, a BBC apresentava os conteúdos que a elite político-cultural achava adequados para educar, informar e entreter as massas. Na enraizada democracia britânica, o modelo institucional da BBC garantia independência do governo, mas tinha um mandato político: o primeiro director-geral da BBC, lorde Reith, escreveu no seu diário privado que os líderes do sistema (do establishment) "sabem que estamos com eles". Os conteúdos visavam ao mesmo tempo a excelência cultural das elites e a inculcação dos seus valores.

A BBC foi criando programas de grande qualidade, que puderam ser exportados e fizeram dela uma das mais importantes marcas britânicas. Essa excelência permite à BBC receitas complementares à taxa (é uma realidade que os nossos políticos fingem não perceber: só se exporta conteúdos de qualidade).

Nem tudo o que a BBC faz é bom. Produz milhares de horas de programação indiferenciada, em especial desde que enfrentou concorrência (nos anos 50 com a ITV, nos anos 80 com a Sky, nos anos 90 e 00 com a liberalização da TV). Se o jornalismo da BBC é partidariamente independente, nem toda a sua programação o é. Muitas mensagens do establishment político passam em programas que não estão sujeitos ao mesmo escrutínio. Mantém-se o modelo ideológico de Reith.

Quanto ao lado institucional, o balanço é bem negativo. A BBC tem vivido um "annus horribilis", nas palavras da ministra da Cultura. Escândalos atrás de escândalos: a quase-
-protecção de um apresentador famoso, predador sexual e pedófilo dentro das suas instalações; um projecto catastrófico de "modernização" que deitou 117 milhões de euros para o lixo; pagamento de 71 milhões de euros em indemnizações a altos quadros que se demitiram; humilhação no parlamento; pedido de auditoria a todos os salários; falta de ousadia na criatividade dos conteúdos.

Deputados, governo e comentadores convergem: grande parte da responsabilidade desta situação deve-se ao sistema de governança da BBC que o governo português quer copiar. O modelo bicéfalo de um Trust e de uma administração foi criado à última hora pelo governo de Blair, substituindo uma proposta mais razoável de um grupo de trabalho. Deu nisto. Neste momento está em cima da mesa uma proposta para o modelo não chegar a 2017, quando deveria ser revisto.

"VOCÊ PODE GANHAR 1500 EUROS SEM RESPONDER A UMA ÚNICA QUESTÃO"

‘Sabe ou Não Sabe’ (RTP 1) deve ser o concurso mais anticultural que já passou na TV portuguesa. Ao pé dele, a ‘Amiga Olga’ do princípio da TVI faria figura de Mestrado em cultura geral. Aos pulinhos e gracinhas, o apresentador anda por uma cidade e promete dinheiro a quem não responder às perguntas simplistas ou patetas. Repito: a quem não responder. Se for preciso, vai à praia e a "cultura geral" é escrutinada em fato de banho. Se a vítima abordada escolher alguém para responder por si e que também não acerte na resposta, o concurso (o contribuinte) também paga. A filosofia transmitida é tenebrosa: a ignorância deve ser recompensada. Isto exemplifica a estratégia dos chefes do operador de "serviço público".

NUNCA SE FAZ NADA BEM À PRIMEIRA

Desastroso, o processo da TDT deve agora ser reaberto. O ministro Maduro, com a sua ideia estatista de RTP "bandeira do Estado" e com precedência no mercado concorrencial, quer pôr a RTP Informação em sinal aberto, omitindo os privados. Logo SIC, TVI e Cofina, proprietária do CM e CMTV, reivindicaram, e bem, canais em sinal aberto na TDT. Liberal, este governo?

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