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Correio da Manhã

Opinião
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11 de Maio de 2003 às 01:05
O ambiente entre o PSD e o PS parecia de absoluta crispação. Afinal, Ferro Rodrigues atrevera-se a fazer pública uma conversa privada com Durão Barroso, aparentemente depois de o primeiro-ministro não ter honrado um acordo referente à revisão da lei de financiamento dos partidos. Por isso, é curiosíssimo assinalar o pesado silêncio que se abateu sobre o “dossier” Fátima Felgueiras aquando do último debate mensal entre Governo e Oposição, há três dias, durante o qual a polémica foi convenientemente absorvida pelo envio de um contingente da GNR para o Iraque. Ninguém – rigorosamente ninguém – ousou abordar o tema de Felgueiras, que tem a ver, diz-se, com sacos azuis e, diz-se ainda, com dinheiro para os partidos, neste caso o PS, que apoiou Fátima, até ao último momento, com uma fé digna de registo. Pareceu existir, no Parlamento, uma conspiração pelo silêncio. Como se o assunto queimasse a boca a todos. Como se houvesse um acordo de regime para evitar estas matérias. Ai, como é saudável uma acalorada divergência democrática…
O jogo das presidenciais vai durar três anos em horário nobre de TV. E compreende-se. Estão ali todos os ingredientes de qualquer boa telenovela: o ciúme, o ódio, a paixão, a traição, a reconciliação, o interesse. Veja-se o resumo desta semana: Soares e Cavaco (o “gajo” – lembram-se da expressão?) encontram-se nas Cortes; o mesmo Soares apadrinha Freitas, ex-“reaccionário”, hoje um distinto e respeitado homem de esquerda; Guterres continua, prudentemente, desaparecido; Marcelo destila puro veneno; Cavaco permanece sereno. E é Santana, o “outsider” populista como os inimigos de estimação gostam de o apodar, quem ganha: na mira de todos e na surpresa da confusão, torna-se o único candidato alternativo aos do sistema. Esta semana não houve direita nem esquerda. Houve um toque a unir contra Santana neste retorno à vida dos dinossauros. Ou seja: mais do que baralharem a esquerda, Soares e Freitas estão a tramar Cavaco. Nos próximos capítulos quase todos tentarão corrigir enquanto Santana abraçará o papel de vítima e os amigos da nova geração o irão preferir nas entrevistas.
No conflito da cidade do Porto, há falta de grandeza pessoal. Se Rui Rio exagerou no fundamentalismo da cruzada contra a promiscuidade político-futebolística que em certa altura pretendeu eleger para a Câmara um capacho de Pinto da Costa, o presidente do FC Porto serve-se do primeiro título da época para reabrir uma guerra perdida num campeonato que não era seu e muito menos do clube. Percebamos isto: Pinto da Costa tem fechado sistematicamente, pelo menos em público, todos os caminhos por onde Rui Rio se possa aproximar das Antas. Era ele quem podia agora ser grande, e unir; é ele quem se rende à sua eterna natureza, e de novo divide. Pinto da Costa ainda não percebeu que mesmo os portistas que o admiram como presidente da instituição, e lhe estão agradecidos pela obra feita, não lhe passam procuração no voto. Foi assim há ano e meio.
José Mourinho é, de forma unânime, reconhecido como o principal obreiro do actual percurso futebolístico brilhante do FC Porto. Merece-o. É um homem com mundo, que soube aproveitar a sorte e aprender com quem sabia mais e arrisca dizer coisas quando fala. No momento em que souber gerir com eficiência alguns assomos de juventude desnecessários, como aqueles que o fazem somar expulsões, será um grande embaixador do futebol português. Enquanto continuar nas Antas vai lançar o FC Porto noutro período de hegemonia, agora que o Sporting, com projecto, está sem treinador e sem dinheiro e o Benfica, sem projecto, depende de Camacho.
Nota – Felgueiras é um hino à promiscuidade entre política e futebol. Felgueiras é um exemplo de como a Justiça se relaciona mal com as suas responsabilidades (ou a presidente não teria podido fugir para o Brasil depois de bem avisada pela comunicação social). Felgueiras é um monumento à irresponsabilidade de um certo PS e de uma certa forma, ligeira e descuidada, de fazer política. Felgueiras, como a Casa Pia, é um caso no qual se cruza muito do pior que existe na sociedade portuguesa.
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