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Correio da Manhã

Opinião
26 de Julho de 2006 às 00:00
O processo de paz com os palestinianos teve início há 14 anos e com enorme esforço e boa vontade foi possível convencê-los de que a paz poderia ser uma realidade, mas Israel, como afirma, não encontrou em Arafat, Prémio Nobel da Paz, o ‘parceiro’ adequado para negociar essa paz como também continua a declarar não o encontrar em Mahmoud Abbas, ambos homens de paz. Se Israel não encontrou em nenhum daqueles dois o ‘parceiro’ apropriado, vai encontrá-lo no Hamas? Poderá então alguém explicar--nos que parceiro afinal Israel pretende? O comportamento de impasse por parte do governo israelita atirou os palestinianos para os braços do Hamas e, quer se goste ou não, o Hamas foi eleito democraticamente. A democracia não pode ser dividida, apesar do castigo colectivo imposto ao povo palestiniano.
Rabin e Arafat foram mortos. O primeiro às mãos de um extremista israelita e o segundo por um governo extremista que o imolou fechando-o e isolando-o no seu quartel-general em Ramallah e cujo fim foi por todos conhecido.
Quando os dirigentes árabes, na cimeira de Beirute em 2002, apresentaram um plano de paz que no seu todo oferecia o reconhecimento do Estado de Israel por todos os países árabes em troca da retirada de Israel para as fronteiras de 1967, Sharon, em resposta, declarou que “aquela oferta não merecia sequer a tinta que a escreveu” e nessa mesma noite as tropas israelitas entraram no campo de refugiados de Jenin, que destruíram.
Perante esta situação, o Presidente Abbas anunciou a realização de um referendo para votar o “documento dos prisioneiros” e cuja principal finalidade seria o reconhecimento da OLP por parte do Hamas e da Jihad Islâmica e a ela se juntarem, bem como a aceitação da Declaração de Beirute e a solução de dois estados. Ao longo de um mês, um intenso diálogo interno palestiniano teve lugar após o qual o Hamas aceitou integrar a OLP, o que significaria legalmente aceitar todos os acordos e protocolos anteriormente assinados pela OLP com Israel. O optimismo parecia voltar aos palestinianos, mas Israel, apesar de ter conhecimento de todas estas negociações, não abrandou a forte agressão que estava a levar a efeito contra a Faixa de Gaza, não dando portanto oportunidade aos palestinianos de anunciarem o estabelecimento de um governo conjunto, bem como informarem que já não se tornava necessária a realização de um referendo. Foi nesta altura que aconteceu o que a dramática imagem transmitida a todo o Mundo nos mostrou de uma criança, Huda Ghalia, correndo em lágrimas pela praia de Gaza após lhe terem matado toda a família.
Então, o soldado Gilat Shilat foi raptado de dentro do seu tanque que bombardeava a Faixa de Gaza. A desumana reacção de Israel nós compreendemo-la, ela não foi apenas para destruir completamente a Faixa de Gaza mas sim também para destruir o acordo que tinha acabado de ser assinado com o Hamas e outras organizações da OLP. Israel pretende ter um inimigo “isolado e terrorista”, pois através desse inimigo Israel pretende justificar a razão dos seus objectivos expansionistas.
O sucesso do acordo nacional palestiniano com o Hamas obrigaria Israel, de acordo com o ‘Roteiro da Paz’, a sentar-se à mesa das negociações, mas Israel prefere dar continuidade ao plano ‘Sharon/Olmert’ que projecta, unilateralmente, um novo traçado das fronteiras de Israel, incluindo Jerusalém Oriental, o muro, o vale do Jordão e os maiores colonatos na Cisjordânia. Aquele plano, a ir em frente, tirará aos palestinianos 58% dos territórios da Cisjordânia. Assim, Israel está a usar o rapto do soldado como desculpa com a finalidade de atingir os seus objectivos ilegais. Deste modo, encontramo-nos novamente na estaca zero e a braços com uma catástrofe humanitária em Gaza, pois a presente guerra no Sul do Líbano virou as atenções mundiais para aquela região.
A paz tem de chegar a esta desapontada, cansada e miserável zona do Mundo e a comunidade internacional tem de actuar. O Mundo tem de ver o que se passa com a violência ali instalada, pois, como já declarei anteriormente, a razão da violência e dos extremismos explica-se numa única palavra: ocupação, bem como pela política de expansão de Israel e à forma diferenciada como o Mundo trata Israel e a Palestina, tornando Israel um país acima da lei. Que Israel declare que retirará de imediato de todos os territórios ocupados e a paz chegará para todas as partes e deixará de existir qualquer tipo de desculpa.
Com estas últimas agressões, Israel não está apenas a destruir a Faixa de Gaza, as suas infra-estruturas e o seu povo, mas poderá estar igualmente a destruir o campo da paz em ambos os lados. A paz trazida pela força é uma paz temporária e nunca será a “paz dos bravos” desejada por Rabin e Arafat. Israel tem de estar consciente de que esta política de destruição e humilhação não aniquilará o terrorismo, mas sim fará crescer a violência e os extremismos entre o nosso desarmado e desiludido povo, vendo a sua terra a ser anexada metro a metro, vendo que a guerra continua mesmo contra a vontade internacional, vendo a menina dos seus olhos, a sua capital de Jerusalém Oriental, a ser judaizada, vendo os seus direitos abandonados no Conselho de Segurança da ONU, sentindo que não têm futuro excepto, se quiserem, receber as migalhas que Israel lhes quiser dar, e tudo isto perante os olhos do Mundo inteiro – nós os do campo da paz fomos junto do nosso povo tentar convencê-los a aceitar a paz com Israel. Arafat pagou com a vida como Rabin pagou com o seu sangue – todos os que morreram pela paz morreram para nada? Será que a paz clamada por Israel enquanto tenta ganhar tempo de forma a criar factos consumados não passará de uma grande mentira? Será que alguém poderá ter noção de quão difícil e longo será o caminho para se tentar novamente construir a confiança na paz?
Não me cansarei de repetir: a paz na Palestina está em perigo, a paz no Mundo está em perigo, as nossas crianças e as crianças de Israel estão em perigo – ponham fim aos massacres! Resgatemos a paz!
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