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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Abril de 2003 às 01:42
Se arrependimento matasse, não estaria a escrever estas linhas. É que, por mais desculpas de que me socorra, não consigo perdoar-me por uma palavra (repito: uma palavra) que se insinuou num texto meu, publicado em Fevereiro nesta página. Hesitei bastante, confesso, em vir dar a mão à palmatória. Mas aqui estou, e vamos lá ao que interessa.
Escrevi eu: "Ferro Rodrigues tem razões de sobra para se vangloriar das novas contratações – uma diplomata, a drª. Ana Gomes, na qual por certo deposita muitas e justificadas esperanças (...). É aqui que está o busílis: justificadas? Que precipitação, que distracção, que premonição me teriam levado a concluir que essas esperanças (que certamente as havia) eram justificadas?
Claro que, para um PS na mó de baixo, a entrega da responsabilidade das Relações Internacionais a uma figura com bastante mediatismo e uma acção reconhecidamente meritória no quadro complexo do que foram os prolegómenos da independência de Timor--Leste seria sempre benéfica e refrescante. Mas daí a concluir-se, aprioristicamente, que as esperanças do dr. Ferro Rodrigues eram justificadas, vai uma grande distância. Tratou-se de manifesto exagero de minha parte e dele me penitencio.
Na realidade, a própria drª. Ana Gomes se encarregaria de demonstrar o quanto eu estava enganado.
A diplomacia, a que estamos habituados a associar os conceitos de tacto, circunspecção, argúcia, prudência, habilidade, parece ter sido uma farda oficial que a diplomata trocou por um traje civil, agressivo e radical, que muito dificilmente corresponderá à imagem que o Partido Socialista tem o mais elementar interesse em transmitir, antes se poderá tornar em mais um daqueles motivos que já levaram Ferro Rodrigues a "perder a paciência". A ideia, porventura errada, que se tem da diplomacia, é exactamente a de dizer as coisas mais agrestes da forma mais elegante possível.
O prestigiado David Frost definiu-a mesmo como uma arte, a arte de deixar os outros fazer as coisas do nosso jeito.
Ora, a drª. Ana Gomes, que em menos de um mês inundou o País com entrevistas e artigos na Imprensa e intervenções na televisão, pareceu mostrar-se, como é uso dizer-se, mais papista do que o Papa, quer no posicionamento perante a célebre Carta dos Oito quer em relação à eventual preferência do ministro da Defesa pela Lockheed em detrimento da Airbus, quer no fervor que revelou no comício contra a guerra. Veja-se, por exemplo, a prudente abstenção do secretário-geral do Partido Socialista em alguns destes aspectos, bem como na votação da Lei de Programação Militar .
A responsável pelas Relações Internacionais do PS é a primeira a reconhecer que é de natureza emotiva e que tem de aprender a ser mais fria e distante.
Mais fria e distante que se revelou ao recusar o desafio do vice-presidente do CDS-PP para um debate televisivo? Bem, por outro lado, quem assistiu à sua participação na rubrica Prós e Contras por certo compreendeu que a sua emotividade, se foi habilmente controlada ao longo da carreira (afinal de contas, diplomatie oblige) também precisará de o ser em qualquer debate que pretenda ser minimamente civilizado.
Política e diplomacia podem completar-se e não estar necessariamente nos antípodas. Já alguém disse, ou escreveu, que um diplomata é uma pessoa que pensa duas vezes antes de não dizer nada. Com ou sem frieza.
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