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Correio da Manhã

Opinião
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Rui Pereira

Fumar/Não Fumar

Não há argumentos racionais a favor do fumo em locais em que prejudique terceiros <br/>

Rui Pereira 7 de Junho de 2012 às 01:00

Em 1993, Alain Resnais realizou o filme ‘Fumar/Não fumar’, ou melhor, um conjunto de dois filmes cujo enredo se desenvolve a partir de um dilema inicial: alguém acende ou não um cigarro, o que faz variar decisivamente o seu destino – no emprego, no casamento e nos restantes aspectos da vida. Embora fique longe do apuro estético de ‘O ano passado em Marienbad’, esta obra de Resnais constitui um exercício assaz estimulante sobre o determinismo e o livre arbítrio: em que medida somos livres de fumar um cigarro e conformar o nosso futuro?

Pela parte que me toca, terá sido aos 15 anos que experimentei um cigarro. Já tinha visto, nessa altura, o "cavaleiro Marlboro" respirar o ar "saudável" da nicotina e outras personagens insinuarem que a masculinidade e o sucesso social dependiam de algumas baforadas. Declaro que não tenciono processar ninguém por essa decisão juvenil, apesar de me ter custado muito abandonar, no ano de 2000, sem a ajuda de fármacos, quatro maços de tabaco diários. Fumar dá prazer, mas causa danos irremediáveis à saúde, como constatei por um enfisema.

Não tenho os tiques de um cristão--novo antitabagista. Sei que um cigarro me saberia muito bem e, por isso, nunca reincidi. Pergunto-me se o faria no caso de um vidente me revelar que iria morrer num desastre, assumindo o último desejo de condenado à morte. Porém, lembro-me do Capitão Ahab, de Melville, que decidiu perseguir a baleia branca por ter sido informado de que só uma corda o poderia matar e, afinal, acabou por ser enforcado pela corda do arpão. Será que eu morreria atropelado ao atravessar a rua para comprar um maço de tabaco? Seja como for, quero dizer – com a legitimidade de quem aprecia os encantos do cigarro (charutos e cachimbos são excentricidades) – que a política proibicionista quanto à publicidade do tabaco e ao fumo em espaços públicos é justa no essencial.

Dispomos do nosso destino e o suicídio não é crime (como sucedia no Direito Romano ou, ainda no século passado, só na forma tentada, no Reino Unido). Contudo, não há argumentos racionais a favor da publicidade do tabaco – provados que estão os seus malefícios – ou do fumo em locais em que prejudique terceiros.

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