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Correio da Manhã

Opinião
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6 de Janeiro de 2010 às 09:00

No princípio, nos anos setenta e oitenta, os movimentos gays tinham como prioridade o "direito à diferença" e a afirmação orgulhosa da sua identidade própria. O "sair do armário", a forma de vestir, as discotecas e as festas, foram as manifestações sociais de um grupo que queria afirmar a sua força política nas sociedades americana e europeia. E, é preciso reconhecê-lo, conseguiu atingir esse objectivo. A partir dessa época, a preferência sexual passou a ser característica distintiva de um ser humano, e geradora de direitos. Deixaram de existir apenas dois sexos, o masculino e o feminino, para passar a existir quatro categorias, homossexuais e heterossexuais para cada sexo. A ascensão da identidade sexual a característica essencial, equiparada à raça e à religião, foi a primeira grande vitória do movimento gay.

Contudo, o princípio orientador dessa guerra era a "diferença", e vencida a contenda, o movimento gay descobriu que demasiada diferença empurrava as suas comunidades para um gueto desagradável. Quando se divide o mundo em heteros e homos, a consequência é o aumento da distância entre as pessoas, uma espécie de apartheid social subtil, prejudicial para todos. E, com o passar dos anos, as paradas gays haviam-se transformado em extravagâncias, meio cómicas, meio patéticas, que prejudicavam a imagem do movimento gay.

Atentos, os líderes do movimento passaram à fase seguinte, a da luta pela "igualdade", cuja bandeira maior é o casamento civil. Numa importante inversão de valores, depois de lutarem pela diferença desejaram o regresso à igualdade, para fechar o ciclo e vencer a tal distância que se instalara entre as pessoas. Porém, e ao contrário do que se passou na "identidade", na polémica questão do casamento o movimento gay fracturou-se.

Nos anos noventa, na América e em Inglaterra, nasceram os movimentos gays conservadores, que recusam a ideia de um casamento gay. Ou seja, a "fractura" entre a esquerda e a direita rasga também o movimento, e não apenas o resto da sociedade.

Em Portugal, a luta gay tem sido sempre uma bandeira da esquerda radical, que tem no Bloco o seu motor. É evidente que o PS adoptou a causa por mera táctica oportuna, e o PCP já não tem paciência para a contrariar, como fez durante décadas. O que é pena é que os gays conservadores portugueses não apareçam, opondo-se ao casamento gay como fizeram os seus compadres lá fora. Nesta, como noutras questões, estamos ainda na idade da pedra.

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