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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Novembro de 2008 às 00:30

Apesar da sua aparente abrangência, o conceito do ‘Minha Geração’ é muito simples (e não propriamente um ovo de Colombo). Trata-se de recapitular sumariamente a história dos últimos 50 anos, sobretudo no âmbito nacional. As imagens do arquivo da RTP, quase sempre a preto e branco, compõem o ramalhete, conferindo à coisa um cheirinho documental. Mas não exageremos: o propósito é um entretenimento ameno e jovial, de uma nostalgia delico-doce. Vejamos a emissão sobre os anos 70. Hoje, tal década é mais ou menos consensualmente considerada excrementícia. Como diz um livro recente, foi durante ela que a Austin lançou o único modelo de carro da história na cor ‘shit-brown’ (castanho cocó). Foi a era das calças boca-de-sino e dos penteados afro.

A era cujo terrorismo (do IRA ao Setembro Negro, das Brigadas Vermelhas ao Baden-Meinhoff) sucedeu a ‘paz e amor’ dos edénicos anos 60. Mas já neste século, a década maldita tem sido reabilitada. Na melhor série britânica em exibição, ‘Life on Mars’, um polícia contemporâneo regressa aos 70 e… adora-os! ‘A Minha Geração’ está-se nas tintas para estas questões. Avia Nixon, Allende, Beatles, Vietname em meio segundo. O próprio 25 de Abril é despachado a galope e o ‘testemunho’ de José Barata Moura não fornece um contexto, mas um pretexto para ele cantar ‘Fungagá da Bicharada’ (a qual, convenhamos, está mais gagá do que funga). Catarina Furtado formula a pergunta que se tornou piada ("Onde estava no 25 de Abril?") – é só uma luz verde para a cantoria de um pastiche dos Abba. De facto, o programa tem dois vectores. Um os highlights musicais das respectivas décadas, que todos já ouvimos mais vezes do que gostaríamos. O outro é a apresentadora: Catarina Furtado (ainda por cima num vestido tipo Mamas and Papas) é um colírio para os olhos.

Oscar Wilde observou que a beleza é uma forma de génio. O bom Wilde não percebia patavina de mulheres (como o resto dos homens, gays ou não), mas não falhava um aforismo. O fascínio da beleza reside, talvez sobretudo, no facto de que diminui a cada minuto que passa – é uma condenada a pena capital no corredor da morte. Ao passo que, se amamos uma mulher feia, o amor só tende a aumentar… Pergunto-me se Catarina terá carisma. Houve grandes vedetas que, por causa do carisma, foram grandes estrelas, embora má actrizes. Depois encolho os ombros. O relógio está a tiquetaquear. Prefiro admirá-la antes que seja tarde.

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