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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Setembro de 2003 às 00:00
1. Basta estar atento às declarações de Pinto da Costa sobre a FPF e a Selecção Nacional; basta, igualmente, estar atento às declarações de Gilberto sobre o presidente do FC Porto; e basta, por fim, enquadrar o elogio feito pelo mesmo Gilberto a Vítor Baía, num momento de fortes pressões sobre o seleccionador no sentido da convocação do guarda-redes portista para o Euro’2004, para perceber que Gilberto Madaíl quis resolver o seu problema para, como de costume, agradar a gregos e troianos: coloca Madaíl do lado do seleccionador; coloca Gilberto do lado do presidente do FC Porto.
2. Nem a infelicidade de Baía na Reboleira fez arrefecer o ímpeto do presidente federativo. Nunca é oportuno um dirigente meter-se nas questões técnicas e muito menos nas técnico-tácticas. Mas face à pressão exercida pelo 'exército do FC Porto' mandaria o bom senso Madaíl calar-se. Não opinar sobre um assunto que diz exclusivamente respeito ao seleccionador nacional. Já bastam as opiniões dos comentadores, as originalmente puras ou as embrulhadas em papel de recado, as alfinetadas de Pinto da Costa e alguns desabafos também menos felizes de Mourinho, como o mais recente segundo o qual “infelizmente para nós e para o Vítor Baía, não é o doutor (Gilberto) quem faz a convocatória”. A cabeça de Mourinho às vezes também entra em curto-circuito. Um treinador não pode dizer uma coisa destas. É negar o seu 'exclusivismo', as tarefas que são da sua inteira responsabilidade, porque uma coisa é o folclore do dia-a-dia, que deve ter igualmente as suas fronteiras; outra coisa, bem diferente, é a seriedade que se deve colocar em assuntos desta natureza.
3. Já todos sabemos a vocação que Gilberto tem para vestir a pele de camaleão e de se vangloriar com a sua condição de sobrevivente. Quando um dia deixar a FPF, esse não será um dia de festa. Será um dia de reflexão. Porque para trás ficará toda uma história de cedências, de situações mal resolvidas e da ausência de um projecto de desenvolvimento do nosso futebol. Não basta a um presidente colocar-se à frente dos jogadores e do treinador no momento das vitórias. Não basta chamar o 'chefe dos bombeiros', João Rodrigues, sempre que há fogo. Não basta ser humilhado por Pinto da Costa e estender-lhe a passadeira. Não basta saber jogar com os avanços e recuos de Valentim Loureiro. Não basta ser nada nas relações com o Governo e aparecer todos os dias nas fotos dos jornais. Os presidentes das Federações deveriam consciencializar--se que não ganham ‘Mundiais’ nem ‘Europeus’. Mas Madaíl quer à força que se lhe atribua uma medalha de vencedor.
4. A FPF está como o PS: precisa de um novo líder; precisa de se renovar e refrescar, precisa de refundar o conceito de credibilidade. A FPF não precisa mais de expedientes e de quem faz jogos de equilíbrio para não cair. A FPF precisa de alguém que ame o futebol e não tenha medo de quebrar tabus.
5. Gilberto Madaíl faz jogo duplo ('respeitamos opiniões e aconselhamos as pessoas a ver quais têm sido os critérios do seleccionador. Na minha opinião podia haver critérios diferentes') para se poder justificar perante Pinto da Costa e Scolari. É feio e reptilário.
6. Se Madaíl fosse independente, coisa que todos sabemos que não é, teria defendido o 'seu' seleccionador quando Pinto da Costa declarou que, após o jogo com o Cazaquistão, Scolari riu-se e olhou para as bancadas com ar de gozo. Mas não: Gilberto ficou com o recado (público) do presidente do FC Porto gravado na memória ('A FPF deve assumir responsabilidades'). E agiu em conformidade, antes que o fogo (de Baía) também se pegasse às suas calças.
7. Quem é que Gilberto Madaíl quer impressionar quando diz que é amigo de Vítor Baía? Por um lado diz que ‘podia haver critérios diferentes’ por outro, afirma que o seleccionador tem toda a confiança da FPF. Nesta altura, por que razão não havia de ter? Por não ter convocado Baía?
8. Ainda não percebeu Madaíl que, para o FC Porto, enquanto se falar da Selecção e de Baía, não se fala de outras coisas? Não se lembra Gilberto que Baía foi suplente no FC Porto e nessa altura o seleccionador nacional de então não reclamou da titularidade do dito cujo?
9. Parece claro que, para Scolari, independentemente do que confidenciou aos jornalistas, só lhe interessa o que Madaíl lhe disse: que o apoia e que as escolhas continuam a ser dele. Scolari só tem de reagir quando as escolhas forem de Pinto da Costa ou de Madaíl.
10. De resto, considerando que Gilberto é um ensaiador de critérios e a pobre figura que está a fazer junto do 'seu' seleccionador, em tempo de crise(s) talvez nos pudesse ter poupado à contratação de um treinador caro e ele próprio fazer, técnica e tacticamente, sempre baseado nos conselhos de Pinto da Costa, a ponte, directa, para Figo, Rui Costa e Pauleta. Perderíamos um mau presidente mas, seguramente, teríamos ganho um grande treinador. É que, com Baía há mais tempo na baliza da Selecção, há mais tempo já estávamos a alimentar a certeza de que, para o ano, seremos campeões da Europa. Canta Baía!
PS – O gesto altruísta de GM e seus pares, reservando 15% da receita de ontem para as vítimas dos incêndios, só faria sentido se Rui Mendes (morto por um ‘very light’) tivesse sido olhado pela FPF como... vítima de outro tipo de ‘incêndio’.
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