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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Maio de 2006 às 17:00
O que faz um político quando julga perceber na Imprensa uma “campanha mentirosa e sórdida” para destruir a sua imagem? No Brasil, Anthony Garotinho optou pela greve de fome. No início do mês, o ex-governador do Rio de Janeiro (actualmente com ambições presidenciais) jejuou até que a tese ficasse provada e até que fosse assegurada “a igualdade de tratamento a todos os candidatos” eleitorais.
Infelizmente, os resultados não foram bem os esperados. O dono de uma funerária ofereceu ao sr. Garotinho um enterro gratuito. Dois humoristas televisivos tentaram chegar ao grevista com um biberão. Os jornais publicaram ‘cartoons’ com frases do género: “Eu apoio a greve de fome de Garotinho. Até ao fim!” E, na internet, surgiram fóruns chamados “Não pára não, Garotinho” e “Você é brasileiro! Não desista nunca!”. Mesmo no Terceiro Mundo, ao qual parece que o Brasil pertence (ver S. Paulo, a cidade, não o apóstolo), o público soube rir-se de uma situação que não merecia reacção diferente. Mesmo brasileiro, ao fim de onze dias o sr. Garotinho desistiu.
Entre nós, a história é outra. Desde logo, porque, como todos os mapas sugerem, Portugal pertence à civilizada Europa. Aqui, os políticos que se imaginam injustiçados pelos media não subvertem os seus hábitos alimentares: publicam livros. Na semana passada, o prof. Manuel Maria Carrilho publicou, justamente, uma espécie de livro. Estranho é que, ainda que ‘Sob o Signo da Verdade’ seja mais pindérico do que 30 greves de fome, quase ninguém se riu daquilo. A RTP entrevistou o autor no dia do lançamento. Na SIC Notícias, diversos debates abordaram o assunto. E não vale a pena contar a extraordinária quantidade de crónicas, escritas e faladas, dedicadas à ‘obra’ (esta, desculpem lá, é apenas mais uma).
Mas pior do que a atenção dispensada é o tom delirante da dita. Aparentemente, não falta quem descubra no livrinho incontáveis virtudes. Aparentemente, o livrinho “convida” a reflexões acerca do papel do jornalismo, “interpela” as relações do jornalismo com a política e, no entender de um idiota deliciado, reclama acrescido controlo sobre a “Comunicação Social”.
Dai-nos paciência. Eu li a coisa e a coisa resume--se ao choro prolongado de um sujeito que, para sua desgraça, não compreende e nunca compreenderá o Mundo. O prof. Carrilho queixa-se de maus tratos, o prof. Carrilho cita elogios de terceiros ao prof. Carrilho (juro!), o prof. Carrilho finge reconhecer algumas culpas e aproveita para se queixar novamente. E é isto: um monumento à completa inconsciência do ridículo, o qual começa na capa, prossegue no título e vibra com espalhafato em cada parágrafo.
De certo modo, é exacto que, conforme se diz por aí, ‘Sob o Signo da Verdade’ lança importantes pistas de discussão. Primeiro, podemos começar por discutir o drama do nosso Ensino Superior, para acolher docentes que escrevem, e mal, livros assim. Depois, com muito vagar, podemos discutir o estado mental de um País que leva o prof. Carrilho e as birras do prof. Carrilho a sério.
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