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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Dezembro de 2006 às 17:00
A paz promete ser o tema-chave dos próximos tempos. A evolução no Médio Oriente combinada com a situação no Iraque e com a escalada nuclear iraniana fazem da paz um assunto prioritário neste final de 2006 e durante todo o próximo ano.
Há sinais positivos, como a retoma do diálogo com a Síria e uma maior abertura israelita à linha do presidente da Palestina. Mas a adopção de sanções da ONU contra o Irão indica que entrámos numa nova fase. Será indispensável não esquecer o que correu mal na gestão da crise do Iraque.
Com a intervenção no Iraque ficou claro que a guerra pode levar a becos sem saída. O mero derrube de Saddam não resolveu, pela via militar, uma situação que exigia mais política e maior identificação com o quadro cultural do país. Tal não significa que os Estados Unidos devam agora abandonar apressadamente o Iraque. Uma retirada americana sem adequada gestão política seria culminar da pior forma uma intervenção que também foi mal medida e insuficientemente preparada.
No quadro actual, pede-se aos responsáveis maior empenhamento nas soluções políticas, em detrimento de soluções que vivam sobretudo do pressuposto militar. Para além do que se tem visto no Iraque, a insuficiência das respostas militares esteve também à vista, recentemente, no Líbano.
Em todo o caso, o perigo atómico, que se presumiu afastado com o fim da Guerra Fria, regressou aos tabuleiros internacionais. O controlo dos armamentos nucleares está no centro da discussão. O regime iraniano defende a sua liberdade de desenvolver armas nucleares, confrontando o Mundo com o arsenal nuclear israelita, cuja tolerância parece pressupor a existência de dois pesos e duas medidas. Quem pode dispor, ao alcance de um dedo, do gatilho nuclear? Haverá armamento nuclear tolerável e outro intolerável, em função das mãos em que se encontra?
Neste contínuo retomar da História, os homens confrontam-se, no fundo, consigo próprios. As respostas às situações podem ser, momentaneamente, determinadas pelo medo ou pela ambição. Mas o que mais importa é a concepção que se tem da própria pessoa humana e do Mundo.
Na sua mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz, o Papa faz um vibrante apelo para o respeito pela dignidade das pessoas, como condição para a construção da paz.
Bento XVI destaca a insuficiência de uma concepção relativista da pessoa, mostrando a sua incompatibilidade com a doutrina dos direitos humanos. Os direitos humanos são geralmente apresentados como absolutos, mas imediatamente enfraquecidos por uma concepção relativista da vida, sempre pronta a ‘negociar’ a dignidade da pessoa humana em função de circunstâncias mutáveis, no tempo e no espaço.
Se a dignidade humana for entendida como inegociável, deve constituir a medida adequada para analisar temas tão diversos quanto o aborto, a igualdade de géneros, o respeito pelo ambiente, as desigualdades económicas, o terrorismo, a guerra e aquilo a que o Papa chama a “ecologia da paz”.
Na sua mensagem, o Papa torna evidente que a paz não é exclusiva tarefa de quem ‘manda’, mas uma exigência de vida. Para todos.
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