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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Manuel Catarino

Há mar e mar

O socorro no mar é insuficiente porque ao longo da costa contam-se pelos dedos o número de estações salva-vidas.

Manuel Catarino 24 de Maio de 2010 às 00:30

As praias da Costa de Caparica já contam, este ano, com quatro mortos. O último sábado foi, até aqui, o dia mais trágico: o mar traiçoeiro, que não costuma perdoar a audazes e a descuidados, roubou três vidas: dois corpos foram resgatados – mas o terceiro, de um rapaz de 17 anos, continuava por encontrar um dia depois do afogamento. Estes casos fazem prova de uma outra desgraça: a ineficácia do socorro marítimo. Já sei que a Marinha vai tentar demonstrar o contrário – com dois argumentos: no mesmo sábado em que morreram três banhistas, dez foram salvos; e a irresponsabilidade de quem não respeita os conselhos dos nadadores--salvadores. Não importa o que se faz: é essa a missão, é esse o dever – e nada me custa, ainda assim, reconhecer o esforço e a coragem de uns quantos. O que me preocupa é o que fica por fazer – porque isso significa a morte.

O socorro no mar é insuficiente e desadequado. Não é suficiente porque ao longo da costa – de Caminha a Vila Real de Santo António – contam-se pelos dedos o número de estações salva-vidas. E não é adequado porque as estações fecham às cinco e meia da tarde, a vigilância das praias é deixada à responsabilidade dos concessionários – e porque a Autoridade Nacional de Protecção Civil não é chamada para operações de salvamento no mar. A nossa Marinha é mais como uma guarda costeira: exerce a autoridade marítima e tem a exclusividade das missões de salvamento. Como se a GNR e a PSP, por exemplo, tivessem a responsabilidade do socorro nas estradas.

No sábado, por exemplo, foi dado o alerta para o 112 pouco depois da uma e meia tarde – quando um casal viu o André a esbracejar na água. Duas horas depois – repito, duas horas depois – chegaram ao local uma embarcação salva-vidas de Paço de Arcos e um helicóptero da Força Aérea. Ao quartel dos bombeiros de Cacilhas – que mantêm em prontidão um veículo de intervenção na praia, uma mota de água e um semi-rígido – não chegou qualquer pedido. Os bombeiros teriam chegado à Caparica em menos de meia hora. Será até desinteressante discutir sobre quem chegaria primeiro na corrida entre a Marinha e os bombeiros. O que deve ser discutido – e convém que seja quanto antes – é a qualidade do socorro no mar. Ou continua apenas com a Marinha, que tem recursos escassos. Ou passa a ser uma responsabilidade partilhada com a Autoridade Nacional de Protecção Civil, que tem helicópteros, pilotos qualificados e conta com meios inestimáveis das corporações de bombeiros do litoral. Não é apenas a Armada que sabe andar no mar. Exemplos não faltam…

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