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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Julho de 2005 às 17:00
Entre a invasão da Polónia, em fins de 1939, e o ataque japonês a Pearl Harbor, em Dezembro de 1941, a América teve dois anos para saber que iria estar em guerra com alguns países de onde tinham vindo os seus imigrantes, Alemanha, Itália e Japão. A imigração alemã nos Estados Unidos era antiga, integrada. Já com as outras duas imigrações era incerta a reacção. A atitude americana para com as duas imigrações problemáticas foi diferente – um sucesso num caso e uma injustiça no outro.
Traumatizados pela derrota momentânea em Pearl Harbor (no Havai, onde era forte a presença de imigrantes japoneses), os Estados Unidos trataram mal os nipo-americanos. Considerados potenciais inimigos e colocaram muitos deles, famílias inteiras, em campos de concentração.
Já os italianos beneficiaram dos tais dois anos de interregno. A política pode ser explicada pela velha táctica de responsabilização: “A bola está convosco. Mostrem qual é o vosso lado”, disse a América aos seus italianos. País velho que os expulsou pela fome ou o novo que os alimentou e honrou como cidadãos livres?
A resposta foi rápida. Os António passaram a Tony e as ruas das Little Italy, de Nova Iorque, a Boston e São Francisco, passaram a ser as mais engalanadas com as bandeiras americanas. Isso quanto ao folclore. De forma prática, os filhos de italianos tiveram a maior percentagem de voluntários na tropa americana. Pequena História: Lucky Luciano, o chefão da Máfia que substituiu Al Capone, foi para a Sicília organizar a invasão do general americano Patton.
Há momentos, como os de guerra, em que se inverte um dos fundamentos da justiça. Os suspeitos não podem ficar à espera que a sua presumível culpabilidade seja ou não provada. Cabe-lhes, a eles próprios, provar a sua inocência. Os italo-americanos saíram-se bem da II Guerra Mundial, ganharam o direito de não ser mais posta em dúvida a sua cidadania americana.
Eide Alawan, o principal conselheiro do imã da maior mesquita americana, em Dearborn, mostra que não há contradição entre o facto de ser muçulmano e ser cidadão americano. Disse: “Não há lugar a nenhum ‘mas’ quando condeno a violência”. E para que ficasse bem claro, Alawan disse que nem Israel pode servir de desculpa: “Se há problema com Israel, fale-se dele. Mas fale-se dele noutra altura. Não quando estamos a falar de bombas. Não se misturem os dois.” Depois do 11 de Setembro e do ataque que a América sofreu, esta é a única opinião legítima para um americano.
Já Azzam Tamimi, da Associação Muçulmana da Grã-Bretanha, referindo-se aos dois ataques bombistas, este mês, em Londres, disse: “As nossas vidas estão em perigo enquanto estivermos no Iraque a contribuir para as injustiças no Mundo.” Quer dizer, há razões para os bombistas.
A guerra em que bombistas islâmicos meteram a Grã-Bretanha, vai exigir dos muçulmanos britânicos outras palavras. Eles vão ter de dizer de que lado estão.
Ontem, o jornal ‘The Daily Telegraph’ publicou uma sondagem, com este número: 6% dos muçulmanos britânicos consideram que os atentados suicidas são justificados. 6% parece pouco. No universo de 1,6 milhões de muçulmanos britânicos, são 100 mil. Quando se sabe que só quatro canalhas mataram 52 pessoas, damo-nos conta que a clarificação é urgente. Desde já esta clarificação: em guerra, as opiniões não são gratuitas.
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