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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Janeiro de 2008 às 09:00
O peso institucional do PR teve a sua confirmação nas reacções do PS e de Correia de Campos à sua mensagem de Ano Novo. O PS diz que sim. O ministro, que não quer ser despedido, esgotou-se em justificações em catadupa na rádio e televisões. Mas tarde e a más horas. A sua obra mostra que nunca foi senão um amargo equívoco, que o PR, com a brandura das palavras que o caracteriza, denunciou agora. O PR não governa. Mas Cavaco, sem governar, é uma espécie de ‘endireita’ de serviço para as maleitas do Governo. O peso da sua sombra tem sido suficiente para nos momentos decisivos operar milagrosas conversões e a correcção de alguns anunciados (ou simplesmente adivinhados) desmandos do Governo. Que, depois, ficam por águas de bacalhau.
Veja-se, agora, o acto de contrição socialista e o pânico de Correia de Campos. E ainda bem. Porque é muito díficil imaginar em que estado se encontraria este país se Cavaco não emitisse as suas opiniões e Sócrates não receasse o que aconteceria se o afrontasse. Eufemisticamente, chama-se a isto coabitação. Na realidade, é uma adaptação contrariada e oportunista aos desejos de Belém. Graças ao PR, decisivo apologista do primado da economia e da secundarização da política (terreno em que, apesar da sua longa aprendizagem, nunca conseguiu ser um grande virtuoso), o combate ao défice tornou-se a bandeira deste Governo. Os socialistas empalideceram. Os social-democratas ficaram órfãos e sem casa. E graças a ele, mais uma vez, admite-se que possam vir a ser corrigidos os exageros nesta louca batalha pela ditadura dos números.
Cavaco não faz oposição, nem precisa. Dizendo o que pensa, substitui-a com vantagem nos momentos cruciais. Porque, da oposição, Sócrates nada receia. Mas os seus sonhos de grandeza não são compatíveis com um confronto com o PR. E cada vez o serão menos. Porque o que Sócrates perde em prestígio, com as ‘loucuras’ de alguns dos seus ministros, ganha Cavaco automaticamente com as suas denúncias. E, a partir da mensagem do fim do ano, afrontar o PR passa a ser afrontar o País real. Sofredor e maioritário mas sem voz. E destinado a sofrer, impotente, os frutos apodrecidos da democracia.
Afinal os Portugueses têm um aliado de peso nas suas preocupações. Como nós, o PR ri-se quando ouve Sócrates cantar a balada do velho socialista amigo dos pobrezinhos ao mesmo tempo que continua a agravar as condições de vida dos Portugueses. Em que nem os cuidados de saúde escapam. O PR, sem descaracterizar as linhas-mestras do seu pensamento, fez suas as preocupações de todos os Portugueses que não vivem de favores vitalícios. Mesmo com a sua formação económica liberal e a sua inquebrantável fé nas virtualidades do mercado, já entendeu que as pessoas não são números, que a sua dignidade se sobrepõe a quaisquer outros valores e que há princípios que têm de ser salvaguardados. Pela sua voz, ouvimos alguns dos nossos lamentos. Criticou quase tudo o que havia para criticar.
Também o PR, que não é um “perigoso esquerdista”, não percebe os salários ultajantes ao lado de bolsas de pobreza, o desemprego, o acentuar das desigualdades sociais, os atrasos na justiça nem para onde vai o País em matéria de cuidados de saúde. E, tal como nós, gostava de perceber.
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