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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Junho de 2008 às 00:30

Não, não se trata de ferrugem, pois, benza-nos Deus, ainda há ofícios em que os miolos são mais importantes do que os músculos. Ao menos, agora podemos tentar enquadrar HJ na devida escala. No seu apogeu, ouvi importantões chamarem-no "um génio" (como classificariam, digamos, Shakespeare e Einstein?). Hoje, dão-lhe carolos na cabeça (ainda que pelas costas). Nem 8 nem 80, s.f.f.!

Um dos problemas de HJ é que ele próprio acabou por suspeitar que era uma espécie de Leonardo Da Vinci, com Monalisa e tudo. Ora, a lacuna principal dele reside precisamente no gosto. O que o tramou foi a autocomplacência – não se pode ser, simultaneamente, ‘Os Malucos do Riso’ e Woody Allen. Assim, o ‘Herman SIC’ derrapou não por causa de brejeirice incontinente (que o povo adora) mas do mirabolante ‘kitsch’ que gorgolejava. O anfitrião não perdia uma oportunidade de se rodear de uma fauna pimba e bimba, pela qual aparentemente sente empatia.

Das antigas piscadelas de olhos aos bem-pensantes (que na maior parte do tempo só estão a pensar na morte da bezerra) ficou apenas uma afectadérrima pronúncia inglesa. HJ nunca conseguiu converter o piroso em arte e verve, como tantas vezes fez e faz Pedro Almodóvar. E, num talk-show, o lastro cultural é inestimável. HJ (como o dono do maior grupo editorial luso) já confessou que não lê livros. Bem, embora para lá caminhemos, cultura ainda não é o mesmo que culturismo. Quanto ao nado-morto ‘Hora H’, que descanse em paz.

Já a estreia de ‘Chamar a Música’ foi auspiciosa. O segredo? Baixar a fasquia até ao rodapé. Trata-se de um modesto e cativante concurso, no qual os concorrentes completam uma canção subitamente interrompida. Herman, com aquelas suas camisas de lantejoulas tipo trapezista de circo e sapatos brancos de ajudante de farmácia, saiu-se bem.

O conceito é ameno, singelo, refrescante e inócuo como gelatina. E este José faz aquilo que, digamos, um José Figueiras nunca conseguiria fazer. Por outro lado, HJ refreou os maneirismos cabotinos. Com excepção – ai, ai – do inglês pseudo-Oxford (um espectáculo tão pungente como Lili Caneças a raciocinar).

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