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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Setembro de 2003 às 01:58
Acaba de ser divulgado pela Comunicação Social que a Holanda seria o primeiro país do mundo a permitir o uso da cannabis, mediante receita médica, para o tratamento de pacientes com enfermidades como a esclerose múltipla, o cancro ou o VIH. Penso por isso ser de interesse para o grande público tentar esclarecer alguns pontos.
1. O que é a cannabis? Trata-se da planta do cânhamo, a qual cresce espontaneamente nas estepes da Ásia central, e é cultivada pela utilidade das fibras para vestuário, cordas, culinária e como forragem de animais. As convenções internacionais permitem a cultura da planta de cannabis exclusivamente destinada a fins industriais (fibras e sementes) ou a fins hortícolas e, por razões ecológicas na obtenção de matérias primas, o seu cultivo é subsidiado, sob controlo, pela União Europeia.
Há milénios, porém, que a cannabis aparece como a planta de dois rostos: o do uso prático e o outro, como droga. E como droga ainda numa dupla face: a das propriedades terapêuticas, como analgésico, sonífero, antitússico, antineurasténico; a outra, a das suas propriedades recreativas e místicas.
2. Como droga recreativa, as duas formas mais frequentemente usadas são a marijuana e o haxixe: aquela obtém-se das folhas e flor das plantas femininas que, depois de secas, assumem o aspecto de tabaco grosso e verde; o haxixe é extraído apenas das extremidades floridas, sob a forma de resina ( tipo tablete de chocolate, em cubos ou "bolos") ou de óleo.
A marijuana, nome provavelmente de origem mexicana (tabaco barato), é a forma mais leve em efeitos e tem designações variadas por todo o mundo: liamba, maconha, riamba ou marimba, bhang, boi, erva, etc..
3. Que motivos se invocam para tomar marijuana ou haxixe, normalmente por inalação?
Dizem os consumidores que lhes aumenta a acuidade das sensações auditivas e visuais podendo, com o aumento das doses, chegar a um estado alucinatório, uma espécie de "sonho acordado" em que o tempo e a distância se alongam. Os primeiros momentos de reacção serão semelhantes aos do álcool, com uma impressão de tranquilidade, desinibição, melhor relacionamento com os outros, riso fácil e frequente.
Terminados estes efeitos –que podem, aliás, manifestar-se nos opostos de hostilidade e violência – sobrevem um estado de sonolência e fadiga.
4. A partir daqui começam as dúvidas, quer quanto à inocuidade dos efeitos da tomada da cannabis, quer quanto aos seus benefícios terapêuticos.
A Academia das Ciências francesa, numa investigação de 1997, concluiu que o uso da marijuana provoca efeitos tóxicos a longo termo, nomeadamente, ataque à função respiratória, modificações da pressão arterial, acção imunosupressora, afecta a memória e a aprendizagem, cria instabilidade caracterial, stress, tentativa suicidária e contexto familiar difícil.
Mas tem ela propriedades terapêuticas? Seis estados norte-americanos, após referendos desde 1997, aprovaram iniciativas favoráveis ao uso da "marijuana terapêutica", mediante prescrição médica, à semelhança do que ora sucede com a Holanda, para combater a náusea da quimioterapia, atenuar a pressão dos olhos no glaucoma, ajudar os doentes de sida a recuperar o apetite. O que veio a ser seguido por alguns médicos. Todavia, em Maio de 2001 o Supremo Tribunal dos EUA veio dizer que a folha da cannabis não tinha propriedades terapêuticas e que a conclusão dos referendos era derrogatória das convenções.
Quero com isto concluir o quê?
Que as convenções internacionais não se opõem ao consumo da cannabis, mediante receita médica, como droga com fins terapêuticos. São os médicos, com base na investigação científica e na sua deontologia profissional, que podem prescrever ou não esta substância como medicamento.
Se os médicos holandeses estão seguros das propriedades da cannabis como medicamento para certas doenças... receitá-lo-ão como qualquer outra droga sob controlo das convenções, por exemplo, como a morfina. E se há nas farmácias...tanto melhor.
Parece, porém, que se está muito longe da certeza sobre esses atributos e – diga-se – a OMS também nada terá feito de relevante para se saber mais.
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