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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Homenagem a Samuel

O Samuel hoje já não vai trabalhar. Reformou-se. A sua secretária na Gomes Freire vai estar vazia e a PJ mais pobre. (...) Fosse este País generoso para com os seus melhores filhos, já há muito que o deveria ter homenageado num 10 de Junho qualquer.

Francisco Moita Flores 29 de Agosto de 2005 às 17:00
Deixem-me contar-vos uma história de vida. Conheci o Samuel há trinta anos. Já nessa altura era um bocado surdo, resultado da sua passagem pela guerra numa unidade de minas e armadilhas e ainda recordo o primeiro encontro. Tinha um olhar penetrante e inteligente e falámos de livros. Estava colocado nos Homicídios e integrava a brigada do lendário chefe Lobão, um polícia que tinha um porco como animal de estimação, e terá sido dos primeiros que cultivou o trabalho de disfarce como método para investigar crimes.
Desde esse dia fui conhecendo mais de perto o Samuel. Persistente, por vezes teimoso até ao absurdo, dotado de uma intuição invulgar, trabalhador incansável, é hoje, seguramente, um dos mais brilhantes investigadores de homicídios da história da Polícia Judiciária. Quis o destino que trabalhássemos juntos e foi um dos períodos da minha vida que agradeço a Deus ter vivido. Cada homicídio era um acto de exaltação intelectual, de criatividade, de rigor. O Samuel trazia à investigação a simplicidade dos comportamentos humanos naquilo que têm de mais nobre e mais cruel.
Possuidor de um carácter de rectidão invulgar, selectivo nos amigos, aparentemente tímido, foi construindo uma carreira gloriosa mas sem que um pingo de vaidade lhe colorisse os gestos. É isso! A sua humildade quase envergonhada é o traço da sua personalidade que mais me impressiona, pois tinha um currículo de êxitos que empanturraria de vaidade um homem comum. Mas o Samuel não é um homem comum.
Culto, sempre inquieto e ávido de saber, apreciador de uma boa mesa, a doença apanhou-o desprevenido há cerca de 20 anos. Lutou como um leão e, embora os diagnósticos indicassem que corria grande perigo de vida, não desistiu. Acompanhei-o nessas horas difíceis e sei bem da energia com que lutou contra a ameaça e simultaneamente trabalhou com a dedicação e entusiasmo como se nada de anormal se passasse com ele. E venceu a doença, embora perdesse um braço. Ainda por cima o braço direito. Sei que nesse momento foram os amigos próximos que o ajudaram a não desistir.
Um polícia de homicídios precisa sobretudo de cabeça e não tanto de braços. Hesitou. A própria direcção da PJ hesitou, mas só a burocracia demasiado estúpida perderia um investigador de excepção porque lhe faltava um braço. Recordo-me que quando chegou da baixa, a seguir à amputação, resolveu numa semana um homicídio que não conseguíamos deslindar havia quase dois meses. Era brilhante. Nem ele próprio deve saber quantos mortos, quantas lágrimas, quanto sofrimento, quantos homicidas lhe passaram pela frente. Mas também não é homem para fazer contas que lhe alimentem a vaidade. E se tinha razões para ser vaidoso!
O Samuel hoje já não vai trabalhar. Reformou-se. A sua secretária na Gomes Freire vai estar vazia e a PJ mais pobre. Os amigos vão homenageá-lo no próximo dia 20 de Setembro. E sei que vai gostar. Fosse este País generoso para com os seus melhores filhos, já há muito que o deveria ter homenageado num 10 de Junho qualquer. Mas quer o País quer o dia 10 de Junho são vaidosos. É natural que não liguem ao Samuel.
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