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Correio da Manhã

Opinião
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11 de Novembro de 2002 às 00:08
O procurador-geral da República lança a denúncia de que, no mundo do futebol, são cometidos crimes económicos e de branqueamento de capitais. A bastonária da Ordem dos Arquitectos acrescenta que é no mercado imobiliário, e não no futebol, onde se pratica a lavagem de dinheiro em maiores quantidades.
O Parlamento acciona uma comissão de inquérito, envolvendo a Polícia Judiciária, mas a comissão desentende-se, o inquérito fica a meio e tudo continua por esclarecer. A actualidade está cheia de casos de Polícia e desta vez nem são precisos crimes de tiros e facadas para abrir os telejornais.

É de justiça que se fala, é do pilar mais importante de um Estado de direito que está em causa e os protagonistas das notícias não são marginais ou delinquentes. É gente muito distinta, engravatada, personalidades com ar respeitável e frequentadores dos salões oficiais.

E, o cidadão comum, como andará a sentir-se diante de todo este frenesim justiceiro? Estará ele a assistir a uma espécie de "operação mãos limpas" à portuguesa? E, perguntará legitimamente, será desta vez que vamos ter corrupção com corruptos? Ou, como sempre convém, a onda passa, uma mão limpa a outra e tudo fica na mesma?
Os mais optimistas dirão que a procissão vai agora no adro. Para os mais realistas, não é com instituições enfraquecidas, com o poder político desacreditado e as Polícias desprestigiadas que a justiça será feita.

É perplexidade que o cidadão normal sente, porque esperava ver os corruptos irem para a cadeia e o director-geral dos Serviços Prisionais demite-se. Sente insegurança, porque queria ver a Polícia a prender, mas polícias é que são presos por suspeita de corrupção.
Também sente estupefacção, por ver o discreto senhor procurador-geral da República a fazer denúncias tão graves e a não concretizar uma única acusação.

Sente ainda indignação, por ouvir a bastonária de uma ordem profissional - que, recorde-se, exerce uma importante actividade no mercado imobiliário - a dizer o que a arquitecta Helena Roseta disse e ninguém a obrigar a prestar provas das afirmações que fez.

E, por fim, sente revolta, porque assiste a um espectáculo de verdadeiro horror democrático, quando os seus representantes eleitos na Assembleia da República iniciam um inquérito judicial com ligeireza e o interrompem com leviandade.

A partir dos depoimentos na comissão parlamentar de inquérito às demissões na PJ, uma coisa é certa - alguém mentiu. Mentir numa comissão destas é tão grave como mentir num tribunal. Como por lá passaram a ministra da Justiça, o director-nacional da PJ e os anteriores responsáveis pela Direcção Central de Combate ao Banditismo e pela Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira, o que é que falta sentir?

Já não é perplexidade, não é insegurança, não é estupefacção, indignação ou sequer revolta. É tudo ao mesmo tempo porque, no fim, todos saem difamados e denegridos e nós ficamos sem saber em quem acreditar. Como não podia deixar de ser, também a imagem dos políticos volta a ser enxovalhada: depois dos deputados das viagens fantasma, temos os deputados das comissões fantoche.

Era a economia que há meses ocupava o centro do debate nacional. A justiça retirou-lhe esse lugar. Não pelos melhores motivos, nem certamente com melhores resultados. Mas este é um debate que tem de ir até ao fim.

As crises financeiras e as recessões económicas afectam o bem-estar das populações. Crises de instituições como o Parlamento, a Procuradoria ou a Polícia Judiciária, têm outro poder de devastação: desvirtuam o Direito, abalam o Estado e corrompem a democracia. Para defender a nossa Pátria, acho que era mais útil organizar um manifesto sobre isto...
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