Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
18 de Maio de 2003 às 00:03
Quando Jardel chegou ao Sporting, já tinha jogado pelo FC Porto, onde realizou notável percurso e acabara de ser rejeitado pelo Benfica, depois de uma novela que envolvera Manuel Vilarinho, antes e depois das eleições. Se os leitores bem se lembram, o brasileiro, que estava a contragosto na Turquia, fez todos os possíveis para mudar de clube e, a certa altura, percebeu que a melhor porta que se lhe abria era a do seu regresso a Portugal. O FC Porto, que já tinha feito um bom negócio, não considerou que se tratava de uma primeira necessidade. O caso do Benfica foi diferente. Jardel chegou a ter um acordo com Vilarinho, no caso de vitória nas eleições. A verdade, porém, é que o processo não prosseguiu como se imaginava, Jardel chegou a fazer chantagem ao presidente dos encarnados e, apesar da promessa e do cartaz eleitorais, Vilarinho deixou cair Jardel.
A situação não foi muito bem digerida na Luz, porque havia quem quisesse o brasileiro mas era Vilarinho que tinha assumido o compromisso e era ele, também, que a certa altura passou a ser confrontado com uma pressão insustentável.
Era o tempo em que José Veiga assumia um grande ascendente sobre o futebol dos encarnados e era, igualmente, o tempo em que Luís Filipe Vieira já preparava o 'assalto' ao arranha-céus.
Deixar Jardel assinar pelo Sporting não foi sequer avaliado como risco.
Se bem me lembro, já passara a ser conhecida a fragilidade psicológica de Jardel e a sua tendência para produzir declarações nem sempre sensatas.
Percebia-se, então, que Jardel não era homem para pensar exclusivamente pela sua cabeça. Aconteceu que, face ao consentimento do FC Porto e, sobretudo, do Benfica, criou-se conjuntura favorável para Jardel entrar feliz em Alvalade. A verdade é que o Sporting foi campeão. A SAD benfiquista tinha de se questionar. E questionar a hipótese de, se não fosse possível tirar, fisicamente, Jardel do Sporting, já que os resultados tinham sido assombrosos, tirá-lo de outra maneira. Em síntese, a cabeça de Jardel deixou de estar em Alvalade. Passou a ter um regime de excepção e isso minou a cabina do Sporting. O treinador ajudou-o enquanto percebeu que estava a trabalhar para si e para o clube que o queria ver em Alvalade. Depois, foi tudo uma história de demissões e omissões. A começar pela capitulação da própria SAD leonina, que acreditou em contos de fadas. Bölöni foi mais refinado: enquanto Jardel lhe foi útil ou podia ser útil aguentou tudo. Quando compreendeu que o espírito paternalista não compunha nada foi radical. Sem benefício para ninguém.
JARDEL NO FC PORTO
Só os que não fazem nada nunca cometem erros; a verdade é que quase toda a passagem de Bölöni por Alvalade foi um erro.
Esta semana o romeno concedeu uma entrevista em que foi puxada para manchete uma frase que, no contexto das declarações que proferiu sobre a força do Benfica e a forma como é utilizada, faz sentido; descontextualizada, só para servir de manchete, assume uma relevância que, na verdade, Bölöni não lhe deu. Tinha de se meter o Benfica na entrevista do treinador do Sporting, porque ela, só por si, 'não vendia'. Essa manchete só confirmou o raciocínio de Bölöni. Disse: "Antes das épocas existe sempre grande euforia em torno do Benfica, parece sempre que vão ganhar o campeonato. Compreendo porquê. A televisão, os jornais centram-se no Benfica e fica a impressão que é uma equipa protegida". Com efeito, trata-se de um campeonato à parte. Que não beneficia o Benfica (face às expectativas que sempre se criam), alivia a pressão sobre os adversários e reduz, injustamente, a dimensão dos outros.
Não creio que Bölöni sirva para treinar uma equipa de topo. É profissional mas tem uma enorme falta de talento. Talvez este FC Porto pudesse ajudá-lo a provar o contrário, mas tem Mourinho.
A propósito: só há um clube no Mundo que pode recuperar Jardel. Precisamente o FC Porto. E podia ser um bom negócio para o Sporting e para o FC Porto, sobretudo para os novos campeões nacionais. Na base de um entendimento que envolvesse, por exemplo, cedência de jogadores.
Mudando de assunto: ficaram todos muito aborrecidos por Bölöni ter dito que o futebol português, globalmente, é do terceiro escalão. Os treinadores estrangeiros ainda acham que somos uma emanação do futebol africano. E a verdade é que, com mais adjectivo, com menos adjectivo, não estão longe da realidade: lutamos pela subida ao segundo escalão do futebol europeu. Globalmente, como diz Böloni.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)