Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
9
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Incendiários (II)

A história dos bombeiros não acompanha a história dos homens. Cresce e desenvolve-se intimamente ligada à história da formação das cidades em plena revolução industrial.

Francisco Moita Flores 22 de Agosto de 2010 às 00:30

Antes disso, durante milénios, os primeiros bombeiros a chegar a um fogo florestal eram camponeses e aldeões, pastores e almocreves que habitavam a floresta. O toque à fogo, era o toque a rebate do sino da igreja. A produção ideológica da cultura urbana, os mitos de riqueza e fortuna com sede nas cidades determinaram impactos na geografia humana do país.

Os montes ficaram desertos, a agricultura foi despedaçada, o país ficou muito mais pobre, recheado de mato, terras abandonadas, aldeias feitas de velhos sem força para partir. Hoje, quando se lêem as notícias sobre as dezenas de carros e centenas de bombeiros espalhados pelas serranias, estamos a ler sobre a profissionalização do combate aos incêndios com indiferença em relação aos titulares das terras. Estão incultas, não merecem despesa. E as populações assistem impávidas até ao momento em que se sentem ameaçadas. O fogo só lhes interessa enquanto ameaça à vida e aos bens.

Vinte anos depois de fundos comunitários e apoios à agricultura, estamos mais pobres. Um vento de loucura apossou-se de quem planeia e organiza o território. Paradoxalmente, em nome da defesa da Natureza. Em nome dos crimes urbanísticos, dizem eles. Em nome da protecção da Reserva Ecológica Nacional. Dizem eles.

Apossou-se desta gente uma mentalidade inquisitorial, tão prosélita quanto a de um qualquer terrorista talibã, que basta olhar o país e as zonas principais de especulação imobiliária, Algarve, regiões metropolitanas de Lisboa e Porto, para se perceber que nada, mas mesmo nada fizeram para o ordenamento e planeamento do território, a não ser lançar burocracia e multiplicar poderes fátuos e ignorantes, verdadeiros encobridores da orgia especulativa e principais responsáveis pela morte dos campos e pela destruição das florestas.

Uma cultura urbana analfabeta, apetrechada de verdades absolutas, que defende o pintarroxo-do-bico-amarelo, o morcego, ou o periquito do vizinho e anulou por completo a possibilidade de revivificar os campos. A política ‘prá frentex’ dos pseudo-ambientalistas e prosélitos defensores da floresta e dos animais, descambou nesta tragédia nacional. Fizeram tudo para que os homens não possam, mesmo que queiram, regressar à terra e às serras. Tudo. É a verdadeira política da terra queimada.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)